quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Civilização da Opulência - Angel González





Particular menção merecem as vitrinas
onde se exibem modas de senhoras.

As sombrinhas de palha de Florença,
levemente douradas, mas sem brilho,
combinam com o fogo de um lenço
desenhado em Paris,
sobre o qual,
                esbelto,
rodeado de pedras ( como gotas
de sangue) de um colar
falso até o êxtase,
                        se eleva
- incômodo, esquisito, indiferente-
um sapato,
um único sapato inconcebível;
esmagador exemplo de beleza,
catedral entrevista sem distância,
cantando com sua esbelta arquitetura
um mudo "glória nas alturas" à
mórbida, longa, afortunada e forte
perna que, possivelmente, surja de sua forma.

Embora por toda parte ( e não aí somente)
a graça de uma cor, o acabamento
perfeito de um estilo, ou simplesmente
a nobre qualidade da matéria
atraem a atenção dos transeuntes,
gritam, cantam, atingem seus sentidos.

Não menos doces foram as canções
que tentaram Ulisses no percurso
de sua desesperadora viagem,
porém ele ia amarrado ao mastro da nave,
e a tripulação ensurdecida
artificialmente e de propósito,
para não poder ouvir, manteve o rumo.

Mas a questão não é esta:
íncubos ou sereias, anjos
decaídos ou na ativa, todos
esses objetos manufaturados, tantas
mercadorias e riquezas brilhantes,
será que vêm vindo
da distância de um mundo diferente,
mais profundo e melhor,
para mostrar a sua perfeição de seres
realizados, plenos, quase eternos,
ou vêm
para contemplar a vida sujeita à intempérie,
a falta de defesa exposta a céu aberto,
o trânsito tranqüilo do homem
à guisa de rebanho
por entre os vales?

Assim são as coisas,
assim as mercadorias:
símbolos indiferentes, cegos,
da felicidade, presos
ao outro lado do cristal manchado
pela respiração e pela avidez desse
tropel informe e apressado
que vacila, sem saber se pára, se olha ou se continua
procurando novas gretas no muro.

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