domingo, 21 de outubro de 2012

Renúncia - Neimar de Barros

Eu queria uma vida assim com você:
Sem relógio e sem dedo em riste,
Sem lei e sem sociedade,
Sem satisfação e sem tchau!
Eu queria uma vida assim com você,
Mas felizmente, meu querer não é tudo
E meu poder é limitado.
Felizmente minha palavra se esvai
E este papel se amarela.
Felizmente porque o bom é a espera.
A incerteza e o talvez são molas propulsoras;
Caso contrário a alegria não teria razão
E o chegar não teria partida.
Eu queria uma vida assim com você:
Sem lenço e sem documento,
Mas o bacana é o adeus, é a volta,
É o riso depois do choro,
É o hoje sofrido e o amanhã exultante.
O bacana é o crescente, é a renúncia,
A noite mal dormida, a consciência,
O bacana é a luta,
É saber que existe o perdão.
É a dúvida do "não quero", mas quero!
Eu queria uma vida assim com você,
Mas dou graças por não ter,
Porque só assim eu posso escrever tudo isto,
Só assim eu posso medir - me,
Posso certificar a limitação humana.
Só assim eu sei que nada sou,
Que vivo capengando,
Carregando o que dá
E caindo com o que não dá.
Só assim eu sei o quanto lhe quero,
O quanto posso, mas o quanto não devo! 

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