quarta-feira, 17 de abril de 2013

"O Que Se Vê e o Que Se Entrevê"




"Na extremidade da cava, que era oblonga, debaixo de uma arquivolta ciclópica singularmente correta, em um buraco quase indistinto, espécie de antro no antro, espécie de tabernáculo no santuário, atrás de uma toalha de luz verde, interposta como um véu do templo, descobria-se fora d'água uma pedra de ângulos cortados em quadro com uma parecença de altar. A Água circundava essa pedra. Parecia que uma deusa tinha descido dali. Era impossível deixar de pensar, debaixo daquela cripta, em cima daquele altar, em alguma nueza celeste eternamente pensativa, que a entrada de um homem tinha feito fugir. Era difícil conceber aquela célula augusta sem uma visão dentro dela; a aparição, evocada pelo devaneio, recompunha-se por si; um rorejar de casta luz sobre espáduas apenas entrevistas, uma fronte banhada de alvores, um oval de rosto olímpico, uns misteriosos seios arredondados, uns braços pudicos, uma coma esparsa em uma aurora, uns quadris inefáveis, modelados em luz pálida, no meio da sagrada bruma, umas formas de ninfa, um olhar de virgem, uma Vênus saindo do mar, uma Eva saindo do caos; tal era o sonho que forçosamente assaltava a imaginação. Era inverossímil que não estivesse antes um fantasma naquele lugar. Uma mulher nua, com um astro em si, devia provavelmente ter ocupado aquele altar. Sobre aquele pedestal, donde emanava um êxtase inexprimível, imaginava-se uma alvura, viva e de pé. O espírito criava, no meio da adoração muda daquela caverna, uma Anfitrite; uma Tetis, alguma Diana que pudesse amar, estátua do ideal formada de um raio e contemplando a sombra com meiguice. Foi ela quem, ao esquivar-se, deixou na caverna aquela claridade, espécie de perfume-luz saída daquele corpo-estrela. A fascinação daquele fantasma já não estava ali; já se via a figura, feita para ser vista somente pelo invisível, mas sentia-se; recebia-se aquele estremecimento que é uma volúpia. A deusa estava ausente mas a divindade estava presente.
                       A beleza do antro parecia feita para aquela presença. Era por causa dessa deidade, dessa fada dos nácares, dessa rainha das brisas, dessa graça nascida das vagas, era por causa dela, ao menos supunha-se isto, que o subterrâneo estava religiosamente murado, a fim de que nada perturbasse nunca ao redor, daquele divino fantasma, a obscuridade que é um respeito, o silêncio que é uma majestade. 
                     Gilliat, que era uma espécie de vidente de natureza, cismava, confusamente comovido.
                     De súbito, alguns palmos abaixo dele, na transparência encantadora daquela água, que eram pedras preciosas dissolvidas, Gilliat viu alguma coisa inexprimível. Uma espécie de longo andrajo mexia-se na oscilação das vagas. Esse andrajo não flutuava, vogava; tinha um fim, ia a qualquer lugar, era rápido. Tinha a forma de um cetro de truão com pontas; essas pontas tinham reflexos; parecia que uma poeira impossível de molhar-se cobria aquele todo. Era mais que horrível, era nojento. Tinha um quê de quimérico; era um ente, a menos que não fosse uma aparência. Parecia dirigir-se para o obscuro da cava e mergulhava-se ali. As espessuras da água tomaram-se sombrias sobre aquela coisa que resvalou e desapareceu, sinistra."



Trecho de "Os Trabalhadores do Mar" - Victor Hugo

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