segunda-feira, 22 de abril de 2013

Sub Umbra

         


          " Às vezes, alta noite, Gilliat abria os olhos e olhava para a sombra.
            Sentia - se extremamente comovido.
            Olhar aberto sobre trevas. Situação lúgubre;ansiedade.
            Existe a pressão da sombra.
            Inexprimível teto de trevas, alta obscuridade sem mergulhador possível; luz mesclada à obscuridade, mas uma luz vencida e sombria; claridade reduzida a pó; é semente? É cinza? Milhões de fachos, claridade nula; vasta ignição que não diz o seu segredo, uma difusão de fogo em poeira que parece um bando de faíscas paradas, a desordem de turbilhão e a imobilidade do sepulcro, o problema oferecendo uma abertura de precipício, o enigma desvendado e escondendo a sua face, o infinito mascarado com a escuridão, eis a noite. Pesa no homem esta superposição.
           Esse amálgama de todos os mistérios a um tempo, do mistério cósmico e do mistério fatal, abate a cabeça humana.
           A pressão da sombra atua em sentido inverso nas diferentes espécies de almas. O homem, diante da noite, reconhece -se incompleto. Vê a obscuridade e sente a enfermidade. O céu negro é o homem cego. Entretanto, com a noite, o homem abate -se, ajoelha -se, prosterna- se, arroja- se, arrasta -se para um buraco, ou procura asas. Quase sempre quer fugir dessa presença informe do desconhecido. Pergunta o que é; treme, curva- se, ignora; às vezes quer ir lá.
          Aonde?
          Lá.
          Lá? O que é? Que há lá?
          Essa curiosidade é evidentemente a das causas defesas, porque para aquele lado todas as pontes ao redor do homem estão cortadas. Falta o arco do infinito. Mas o desejo atrai, porque é golfão. Onde não vai o pé, vai o olhar, onde o olhar para, pode continuar o espírito. Não há homem que não tente,  por mais fraco e insuficiente que seja. O homem, segundo a sua natureza, investiga ou espera diante da noite. Para uns é um rechaçamento, para outros é uma dilatação. O espetáculo é sombrio. Mescla -se a ele o indefinível.
         Vai a noite serena? É um fundo de sombra. Vai tempestuosa? É um fundo de fumaça. O ilimitado recusa - se e oferece-se ao mesmo tempo, fechado à experiência, aberto à conjectura. Infinitas picadas de luz tornam mais negra a obscuridade sem fundo. Carbúnculos, cintilações, astros. Presenças verificadas no Ignorado; tremendos reptos por ir tocar esses clarões. São estacas da criação no absoluto; são marcos de distância lá onde já não há distância; é uma espécie de numeração impossível, e todavia real, do canal das profundezas. Um ponto microscópico que fulge, depois outros, mais outro, mais outro; é o imperceptível, é o enorme. Essa luz é um foco, esse foco é uma estrela, essa estrela é um sol, esse sol é um universo, esse universo é nada. Todo o número é zero diante do infinito.
           Esses universos que nada são, existem. Verificando- os, sente- se a diferença que vai entre ser nada, e não ser.
           O inacessível ligado ao inexplicável, eis o céu.
           Dessa contemplação solta - se um fenômeno sublime: o crescimento da alma pelo assombro.
           O medo sagrado é próprio do homem, a besta ignora esse medo. A inteligência acha nesse terror augusto o seu eclipse e a sua prova.
           A sombra é una: vem daí o seu horror. É, ao mesmo tempo, complexa: vem daí o terror. A sua unidade pesa no nosso espírito e saca- lhe a vontade de resistir.
          A complexidade faz com que se olhe para todos os lados; parece que se devem recear assaltos súbitos. O homem rende- se e defende- se. Fica em presença do Todo, daí vem a submissão, e de muitos, daí vem a desconfiança. A unidade da sombra contém um múltiplo. Múltiplo misterioso, visível na matéria, sensível no pensamento. Faz silêncio, razão demais para espreitar.
          A noite - já o disse algures quem escreve essas linhas - é o estado próprio, normal da criação especial de que fazemos parte. O dia, breve na duração como no espaço, é apenas uma proximidade de estrela.
          O prodígio noturno universal não se realiza sem atritos, e os atritos de uma tal máquina são as contusões da vida. Os atritos da máquina, é o que chamamos o Mal. Sentimos nessa obscuridade o mal, desmentido latente da ordem divina, blasfêmia implícita de fato rebelde ao ideal. O mal acrescenta uma teratologia de mil cabeças ao vasto conjunto cósmico. O mal está presente em tudo para protestar. É furacão, e atormenta a marcha de um navio, é caos e entrava o desabrochar de um mundo. O Bem tem a unidade, o Mal tem a ubiquidade. O mal desconcerta a vida, que é uma lógica. Faz devorar  a mosca pelo pássaro, e o planeta pelo cometa. O mal é um borrão na natureza.
         A obscuridade noturna peja-se uma vertigem. Quem a aprofunda, submerge -se e debate -se. Não há fadiga comparável a esse exame de trevas. É o estudo de um apagamento.
          Não há lugar definitivo para pousar o espírito. Pontos de partida sem ponto de chegada. O cruzamento das soluções contraditórias, todos os ramos da dúvida a um tempo, a ramificação dos fenômenos esfoliando-se sem limite sob uma impulsão indefinida, mistura de todas as leis, uma promiscuidade insondável que faz com que a mineralização vegete, com que a vegetação viva, com que o pensamento pese, com que o amor irradie, e a gravitação ame; a imensa frente de ataque de todas as questões  desenvolvendo -se na obscuridade sem limites; o entrevisto esboçando o ignorado; a simultaneidade cósmica  em plena aparição, não para o olhar, mas para a inteligência, no espaço indistinto; o invisível tomado visão. É a sombra. O homem está embaixo. Não conhece os pormenores, mas suporta em quantidade proporcionada ao seu espírito o peso monstruoso do conjunto. Esta obsessão impelia os pastores caldeus à astronomia. Saem dos poros da criação revelações involuntárias; faz -se por si mesma uma transudação de ciência e invade o ignorante. Debaixo dessa impregnação misteriosa toma- se o solitário, muitas vezes sem ter consciência, um filósofo natural.
           A obscuridade é indivisível. É habitada. Habitada sem deslocação pelo absurdo; habitada também com deslocação. Move -se ali dentro alguma coisa, o que é para assustar. Uma formação sagrada desenvolve ali as suas fases. Premeditações; potências, destinos intencionais, laboram aí em comum uma obra desmedida. Vida terrível e horrível é o que existe ali dentro. Há vastas evoluções de astros, a família estelar, a família planetária, o pólen Zodiacal, o Quid divinium das correntes, dos eflúvios, das polarizações e das atrações; há o amplexo e o antagonismo, um magnífico fluxo e refluxo da antítese universal, o imponderável em liberdade no meio dos centros; há a seiva nos globos, a luz fora dos globos, o átomo errante, germe esparso, curvas de fecundação, encontros de ajuntamento e de combate, profusões inauditas, distâncias que parecem sonhos, circulações vertiginosas, mergulho de mundos incalculável, prodígio perseguindo -se nas trevas, um maquinismo definitivo, sopro de esferas em fuga, rodas que se sentem andarem; existe e esconde- se; é inexpugnável, fora de alcance.
       Fica- se convencido até à opressão. Tem -se em si uma evidência negra. Nada se pode agarrar. Esmaga -nos o impalpável.
      Por toda a parte o incompreensível: em parte alguma o ininteligível.
      E a tudo isto acrescentai a terrível questão: esta Imanência é um Ser?
      Está -se debaixo d sombra. Olha- se. Escuta-se.
      Entretanto a terra sombria caminha e rola, as flores têm consciência desse movimento enorme; a silena abre- se às onze horas da noite e a hemerocale às cinco horas da manhã. Impressionante regularidade.
      Em outras profundidades a gota d'água faz- se mundo, o infusório pulula, a fecundidade gigante sai do animálculo, o imperceptível ostenta a sua grandeza, o sentido inverso da imensidade manifesta- se; uma diatoméia produz em uma hora um milhar e trezentos milhões de diatomeias.
       Que proposição de todos os enigmas ao mesmo tempo!
        Está aí o irredutível.
        Constrange- se -nos a fé. Crer por força, eis o resultado. Mas para estar tranquilo não basta ter fé. A fé tem uma estranha necessidade de forma. Daí as religiões. Nada é tão opressivo como uma crença sem delineamento.
        Qualquer que seja o pensamento e a vontade, qualquer que seja a resistência interior, olhar a sombra, não é olhar, é contemplar.
        Que fazer desses fenômenos? Como mover -se debaixo de sua convergência? É impossível decompor esta pressão. Que devaneio se deve ajuntar a todos esses confinantes misteriosos? Quantas revelações abstrusas, simultâneas, balbuciantes, obscurecendo -se em sua própria multidão, espécie de balbuciar do verbo! A sombra é um silêncio; mas esse silêncio diz tudo. Surge majestosamente um resultado: Deus. Deus é a noção incompreensível. Essa noção está no homem. Os silogismos, as querelas, as negações, os sistemas, as religiões, passam por cima sem diminuí- la. A sombra inteira afirma aquela noção. Mas turva -se tudo o mais. Imanência formidável. A inexprimível harmonia das forças manifesta- se pelo equilíbrio dessa obscuridade. O universo pende; nada tomba. O deslocamento incessante e desmedido opera- se sem acidente e sem fratura. O homem participa deste movimento de translação e à quantidade de oscilações que suporta, chama ele destino. Onde começa o destino? Onde acaba a natureza? Que diferença há entre um acontecimento e uma estação, entre um pesar e uma chuva, entre uma virtude e uma estrela? Uma hora não é uma onda? Continua o movimento da roda, sem responder ao homem, em sua revolução impossível. O céu estrelado é uma visão de rodas, de pêndulos e de contrapesos. É a contemplação suprema forrada da suprema meditação. É toda a realidade e mais a abstração. Nada além daí. O homem sente- se preso. Fica à discrição da sombra. Não há evasão possível. Vê -se ele naquele composto de rodas, é parte integrante de um Todo ignorado, sente o desconhecido que está dentro dele fraternizar misteriosamente com o desconhecido que está fora dele. Isto é o anúncio sublime da morte. Que angústia e, ao mesmo tempo, que fascinação. Aderir ao infinito e, por essa aderência, atribuir -se uma imortalidade necessária, quem sabe? Uma eternidade possível sentir na prodigiosa vaga desse dilúvio de vida universal a obstinação insubmersível do eu! Contemplar os astros e dizer: sou uma alma como vós! Contemplar a obscuridade e dizer: sou um abismo como tu.
         Essas enormidades são a noite.
         Tudo isso aumentado pela solidão, pensava Gilliat.
         Compreendia- o ele? Não. Sentia -o? Sim.
         Gilliat era um grande espírito turvado e um grande coração selvagem."
 
 
  
 
 
 
 
 
 
 
Trecho do livro "Os Trabalhadores do Mar" de Victor Hugo


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