segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Natal, O Triste Destino das Gaivotas - Antonio Ventura

Hoje, 20 de dezembro de 2004. 0h50. A chuva chegou à tarde e não parou até agora.Há muito tempo não via tanta chuva.Esta semana, sábado, comemoraremos mais um Natal, com a ceia começando na sexta-feira, exatamente à meia noite.Soltarão fogos de artifício.Natal, com comida farta, leitoa,frango caipira, arroz, maionese, farofas, e, quem sabe, carneiro.E uvas, abacaxis, melancias.Mas dizem que o Natal representa o menino que nasceu em uma manjedoura, jurado de morte, um dia morreu justamente para que entendêssemos que todos somos irmãos, nascidos da mesma matéria, da mesma chuva milenar, dos mesmos átomos que deram origem às esferas dos DNAs.Resumindo, o filho do homem queria dizer: olha, eu sou eu e sou você, sou esta chuva, este sol sobre a terra, esta pedra, esta árvore, este céu que nem sempre está azul e que nem sempre à noite está abarrotado de estrelas.Por isso ele veio para nascer, morrer e renascer a cada dia de sol, a cada dia sobre os campos de trigo.É por isso que um dia eu te chamei de pai, irmão, mãe e te disse que somos todos iguais, embora alguns mais divinos que outros.Os divinos são deuses.Os não divinos sofrem, porque são pobres de espírito.Mas a chuva cai mansamente e parece que vai varar a noite.Chove e a chuva faz barulho de água caindo em cima dos toldos, dos telhados, das plantas.Na verdade somos feitos de água, que mata a sede dos rios.Só não mata a sede do mar, que é salgado, e está sempre com sede.Por isso que o mar não descansa, sempre atormentado de areia e sal e sol.Ah!Que saudades do mar, daquele mar remoto, tão remoto que está presente no meio das algas marinhas, batendo nos rochedos de pedra bruta.Pedras de cores escuras, a chama das lavas solidificadas formou os rochedos cinzentos.Belas são as espumas, chegam nas areias quase brancas e espumando voltam para as águas.Muitas espumas são tragadas pelas areias, quando as brancas espumas vão e voltam, voltam e vão.E este é o destino dos homens, o destino do mar e das pedras, ir e voltar, trazendo as gaivotas e outros animais marinhos, que voam circundando as praias.Além do mar não existe nada.Apenas silêncio.Eterna idade.E o triste destino das gaivotas, que morrem brancas nas praias.Felizes, porque não sabem que morrem.


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