quarta-feira, 18 de novembro de 2015

"Tátátá"

Eu só quero cavalgar
E cavalgar
E cavalgar
E cavalgar
E cavalgar
E cavalgar
E cavalgar
E cavalgar
E cavalgar
E cavalgar
E cavalgar
E cavalgar
E cavalgar
E cavalgar
E cavalgar
E cavalgar
E cavalgar
Olha o galope, hop!

"Petrificação"

Estou solidificando novamente.
Vou endurecendo,
solidificando
soliquidificando
me tornando líquida
e gasosamente flutuo
para dentro de mim.
Sólida solidão silenciosa
Sons que são só silêncios
Sussurros gritando urros
Urros sólidos dentro de mim.
Solidão sólida na sola do solo do ser.
Eu.

"Sova"

Estou apanhando
igual vaca na horta.
Apanhando da vida.
Apanhando sonhos alheios.
Apanhando oportunidades 
como um apanhador
num campo de centeio.
Apanhando
um apanhado de coisas
um punhado de atitudes.
Me apanharam sorrindo
em meio a um 
campo de girassóis.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

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Vocês ficam achando que eu demoro muito pra escrever entre uma postagem e outra né? Tenho certeza... O que não sabem é que isso é meio proposital...bom, é por falta de tempo e tédio também às vezes, mas também é uma tática, juro! Porque enquanto as postagens ficam aqui mofando dias e dias, meses e meses, anos e anos (isso não, claro que não), imagina quantas pessoas passam aqui e vêem as postagens mofadas? Imagina quantas vezes a mesma pessoa lê a mesma postagem? Vocês sabem, né, que quanto mais a gente lê o mesmo texto, mais detalhes aparecem, melhor compreendemos o que o texto diz. É bem igual filme mesmo, quanto mais vezes você assiste, mais detalhes você percebe!! E tem mais: aproveito para usar aquele ditadinho que diz assim: "Amizade é como vinho: quanto mais velho, melhor". Por isso, as postagens mofadas aqui do meu blog vão ficando melhores a cada dia que ficam expostas aqui, até que outra mais nova um pouco é colocada aqui pra ir decantando também...E mais um segredo: eu quase não coloco postagens inéditas aqui... as coisas tem que ter acontecido já, principalmente se for poesia minha...espero uns dias, uns meses pra colocar aqui, porque daí elas já tão mais velinhas... É igual vinho mesmo, igual aqueles pimentões que a gente põe pra curtir no vinagre, tem que esperar um tempinho pra ficar bom, senão desanda. E no Minestra de Letrinhas funciona assim, porque sempre o que se guarda em baú acaba mofando. Claro que mofo aqui não é pejorativo não, pelo contrário, é igual mofo de queijo rochefort, uma delícia! Por isso, caros observadores do Minestra, não se deixem desanimar se eu demorar um pouco para postar aqui...Tudo tem seu tempo, e o Minestra foi feito mesmo para ser um blog mofado... A paciência tudo alcança. Enquanto não ponho postagem nova pra amadurecer por aqui, vai lendo umas mais antigas, com mais calma, vendo o que mudou desde a primeira vez que você leu aquelas postagens...não leia uma postagem uma vez só na vida... remexa e revire este baú de palavras de ponta cabeça! Aproveite, comente em postagens mais antigas, divirta-se, xingue um pouco! Faz bem pra saúde mental...



sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Frases de Efeito

Não são minhas. A maioria é de Carlos Nejar.

"Nunca discuti em português com um passarinho" - Nejar


"Porque Deus me ama, fiz as palavras me amarem." - Nejar

"Não há instrumento mais afinado do que tocar coração de ouvido."

"As letras te leem, filho, antes que possas aprendê-las. As letras são o delírio das palavras."

"Não careço de licença para de amor explodir."

"O homem é o melhor cão do amigo."



"Quando amamos, somos nós que acendemos a lua."

" -De quantas almas é feita a eternidade? - De Deus, que é todas as almas juntas."

"Quando maduramos é porque temos mais alma do que tempo. E se enverdecemos, é o contrário."

"Quando nada acontece é tudo."

"Escrevi tudo o que aconteceu e que iria acontecer, acontecendo. Até acontecer de novo e não acontecer mais."

"Quero pescar no anzol o abismo."



"Tudo acontece em nós muito antes de ter acontecido."

"Penélope tecia um tear de alegria durante o dia e à noite desmanchava- o transformando-o em mágoas."

"No meio da travessia eu não vejo."

"Nunca se retorna do lugar de onde se partiu."

"O Romance não procede da tradição oral nem escrita."

"A narrativa é uma receita de vida."



"O narrador é alguém que sabe dar conselhos."

"O texto literário nos modifica através de experiências relatadas."

"O papel do narrador é intercambiar experiências."

"Nunca se esqueça de suas raízes. Mas também não fique desenterrando o que está morto."

"Ler pressupõe uma tradução sonora."

terça-feira, 1 de setembro de 2015


Não posso colocar nada da Clarice Lispector no meu blog. Ela não dava entrevistas.

Educação: Transforme, Curta, Compartilhe


terça-feira, 25 de agosto de 2015

"Bárbara"




Achava que meu português
era errado.
Subjeto da língua.
Sub objeto da língua.
Sub dejeto da língua.

O português certo é errado.
O português culto é errado.
O errado é dizer que o errado
é certo.

É errado dizer que o errado é culto,
mas não é errado dizer que o culto é errado.

Meu português não é português.
Meu português é latim, é guarani, é bárbaro.
Bárbara é o meu outro nome.
Meu português é brasileiro, nascido no sul,
morando em São Paulo, rondando Minas.
A língua que falo não é português.
A língua que escrevo não é português.
O que é o português?

O galego, o luso, o misto...

Escrevo numa língua e falo em outra.
Sou bilíngue, Trilíngue. Tetralíngue.
Sou ambidestra. Mas não pratico.
Sou uma minestra de língua, de fala,
de voz, de raça, de cor...
Sou uma minestra de letrinhas.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Trecho de Campo Geral - João Guimarães Rosa


      Um certo Miguilim morava com sua mãe, seu pai e seus irmãos, longe, longe daqui, muito depois da Vereda-do-Frango-d'Água e de outras veredas sem nome ou pouco conhecidas, em ponto remoto, no Mutum. No meio dos Campos Gerais, mas num covão em trecho de matas, terra preta, pé de serra. Miguilim tinha oito anos. Quando completara sete, havia saído dali, pela primeira vez: o tio Terez levou-o a cavalo, à frente da sela, para ser crismado no Sucuriju, por onde o bispo passava. Da viagem, que durou dias, ele guardara aturdidas lembranças, embaraçadas em sua cabecinha. De uma, nunca pôde se esquecer: alguém, que já estivera no Mutum, tinha dito: - "É um lugar bonito, entre morro e morro, com muita pedreira e muito mato, distante de qualquer parte; e lá chove sempre..."

      Mas sua mãe, que era linda e com os cabelos pretos e compridos, se doía de tristeza de ter de viver ali. Queixava-se, principalmente nos demorados meses chuvosos, quando carregava o tempo, tudo tão sozinho, tão escuro, o ar ali era mais escuro; ou, mesmo na estiagem, qualquer dia, de tardinha, na hora do sol entrar. - "Oê, ah, o triste recanto..." - ela exclamava. Mesmo assim, Miguilim padeceu tanta saudade, de todos e de tudo, que às vezes nem conseguia chorar, e ficava sufocado. E descobriu, por si, que, umedecendo as ventas com um tico de cuspe, aquela aflição um pouco aliviava.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Trecho de Campo Geral - Guimarães Rosa

Miguilim

    De repente lá vinha um homem a cavalo. Eram dois. Um senhor de fora, o claro da roupa. Miguilim saudou, pedindo a bênção. O homem trouxe o cavalo cá bem junto. Ele era de óculos, corado, alto, com um chapéu diferente, mesmo.
                  
                 - Deus te abençõe, pequenino. Como é o teu nome?
                 - Miguilim. Eu sou irmão do Dito.
                 - E o seu irmão Dito é dono daqui?
                 - Não, meu senhor. O Ditinho está em glória.

    O homem esbarrava o avanço do cavalo, que era zelado, manteúdo, formoso como nenhum outro. Redizia:
               - Ah, não sabia, não. Deus o tenha em sua guarda... Mas, que é que há, Miguilim?

     Miguilim queria ver se o homem estava mesmo sorrindo para ele, por isso é que o encarava.
               
              - Por que você aperta os olhos assim? Você não é limpo de vista? Vamos até lá. Quem é que está em tua casa?
               - É Mãe, e os meninos...
      
      Estava Mãe, estava tio Terez, estavam todos. O senhor alto e claro se apeou. O outro, que vinha com ele, era um camarada. O senhor perguntava à Mãe muitas coisas do Miguilim. Depois perguntava a ele mesmo: - "Miguilim, espia daí: quantos dedos da minha mão você está enxergando? E agora?"
       Miguilim espremia os olhos. Drelina e a Chica riam. Tomézinho tinha ido se esconder.

                - Este nosso rapazinho tem a vista curta. Espere aí, Miguilim...
      
         E o senhor tirava os óculos e punha-os em Miguilim, com todo o jeito.
      
                 - Olhe, agora!

         Miguilim olhou. Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa; tudo... O senhor tinha retirado dele os óculos, e Miguilim ainda apontava, falava, contava tudo como era, como tinha visto. Mãe esteve assim assustada; mas o senhor dizia que aquilo era do modo mesmo, só que Miguilim também carecia de usar óculos, dali por diante. O senhor bebia café com eles. Era o doutor José Lourenço, do Curvelo.


Cantiga Simples - Olegário Mariano



Rio, que cantas as mágoas,
Que queres com o teu cantar?
 - Quero levar minhas águas
Até as águas do mar.

Árvore, que ergues os braços,
Que queres a bracejar?
 - Quero galgar os espaços
Para o sol me acariciar.

Nuvem, de cores estranhas,
Que queres a galopar?
 - Quero descer às montanhas,
Vestir montanhas de luar.

Lua feita de incerteza,
Que queres com o teu palor?
 - Quero boiar na tristeza
Dos olhos do teu amor.

Pastor, que sobes o monte,
Que queres galgando-o assim?
 - Quero ver do alto o horizonte,
Que foge sempre de mim.

Estrela, pequena e clara, 
Que queres? Dize, eu te dou.
 - Quero ser a joia rara
Da mulher que nunca amou.

Onda crespa, onda serena,
Que queres no teu vaivém?
 - Beijar a pele morena
Da praia que me quer bem.

Andorinha peregrina,
Que queres de asas ao léu?
 - Quero morar na colina
Mais alta, perto do céu.

Coração, que , em comovida
Marcha, bates, sofredor,
Que queres? Prazer ou dor?
 - "Eu nada quero da vida,
Além da vida do Amor."

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Motivo - Cecília Meireles

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
 - não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
 - mais nada.





quinta-feira, 9 de julho de 2015

Sonho de Heroi - Murilo Araújo

Com um galho de bambu verde
e dois ramos de palmeira
eu hei de fazer um dia o meu cavalo - com asas!

Subirei nele, com o vento, lá bem alto,
de carreira,
por sobre o arvoredo e as casas.

Voarei, roçando o mato, 
as copas em flor das árvores,
como se cruzasse o mar...
e até sobre o maro de fato
passarei nas nuvens pálidas
muito acima das montanhas, das cidades, das cachoeiras,
mais alto que a chuva, no ar!

E irei até às estrelas,
ilhas dos rios de além,
ilhas de pedras divinas,
de ribeiras diamantinas
com palmas, conchas, coquinhos nas suas praias também...

praias de pérola e de ouro
onde nunca foi ninguém...


terça-feira, 7 de julho de 2015

Principado Extinto - Matilde Campilho

Isto é um poema
fala de amor
ou medo do amor
Fala da morte
ou do fim da amálgama
rosto voz alma e cheiro
que é a morte
Isto é um poema
tenha medo
Fala dos peregrinos
que atravessam avenidas
de sobretudo e óculos
carregando flores invisíveis
e chorando mudos
Isto aqui é um poema
fala da permanência inútil
de um coração devastado
de uma floresta devastada
de uma corrida devastada
logo depois do disparo
da arma de 40 peças
que soltou a bandeirinha
e assim mesmo se desfez
Isto é um poema
fala da aparição do inverno
fala da fuga dos albatrozes

fala do punhal sobre a mesa
e do absurdo do punhal
feito de madeira e pedra
sobre a mesa do jantar
Fala do poder da erosão
que afinal incide sobre
pele nervo e osso e olho
Fala do desaparecimento
Fala do desaparecimento
Fala do desaparecimento
Claro que é um poema
fala do toque de saída
no colégio de Île de France
e das 39 saias das meninas
esvoaçando sem vontade
na direção do cais de ferro
Fala do pânico do corpo
que esbarra em si mesmo
no espelho pela manhã
e do urro silencioso
que nenhum vizinho
escuta mas que ainda
assim reverbera sem dó
até a hora final
fala do vômito que advém
dos gestos repetidos

Fala do vômito que advém
dos gestos gastos
prolongados assim ad astra
até que o sono apague tudo
Fala da palavra saudade
ou da palavra terremoto
fala do olho que tudo via
deixando lentamente de ver
até mesmo a cara de Jack Steam
o porteiro da loja de discos
onde toca a canção de Chavela
Nada mais no mundo importa
Isto é que é poema
Fala do cheiro das flores
e da injustiça da existência
das flores na cidade
Fala da dor excruciante
meu bem excruciante
que faz até desejar
o fim do poema
o fim da palavra amor
que após o disparo
se espelha apenas
na palavra loucura.



segunda-feira, 6 de julho de 2015

Carta de Mário de Andrade



Salve a Banda! (fragmento) - D. Marcos Barbosa

   Se o poeta Carlos Drummond de Andrade saudou a banda que passa, se o cronista Rubem Braga também lhe mandou seu aplauso e se comoveu com a lembrança da moça feia que a banda não esqueceu, como não haveria o padre, o monge, de alegrar-se também com o mundo que se torna de repente fraternal e unido pelas coisas de amor que a banda canta?

   Estava à toa na vida
o meu amor me chamou
pra ver a banda passar
cantando coisas de amor.

   A banda vai passando e vai chamando, e os homens vão saindo, por um instante, da sua concha, da sua crosta, do seu asteroide, cativados pela suavidade, pela festa, pela infância da música.
   Como é bonito vermos de novo este mundo congregado, reunido, se encontrando, por um instante ao menos, enquanto passa a banda. Esta banda, que é prima-irmã do Pequeno Príncipe, vai tirando os homens da solidão, e o eco já não responde mais: "Estou só! Estou só!".

A minha gente sofrida
despediu-se da dor
pra ver a banda passar
cantando coisas de amor.

   Quem leu o Pequeno Príncipe? O homem de negócios está só no seu asteroide, e o vaidoso também, e o bêbado também, e o sábio também, e o trabalhador também; pois o dinheiro, a vaidade, o vício, e até mesmo o trabalho e a ciência, levam à solidão - e mesmo à guerra - se não estão imantados pelo amor, transfigurados pelo amor; pois só o amor - "o amor que move o sol e as outras estrelas" - só o amor cria laços.
   
   E a bandinha passa "cantando coisas de amor". Os homens já não se sentem repelidos, mandados para o inferno, mas pensam: alguém pensou em mim, teve pena da minha solidão sem conhecer-me e manda-me esta mensagem que vai passando - e vai interrompendo, por um instante, a ganância do rico, a bazófia, a feiura da moça feia. Todos se encontram, de repente, naquela pausa, naquele intervalo que é música, sentindo a comunicação, a comunhão, a volta da infância e a sugestão de alguma coisa que talvez se possa esperar, e que por isso já se faz presente...

sábado, 4 de julho de 2015

A Banda - Fragmento de Carlos Drummond de Andrade

         Se uma banda sozinha faz a cidade toda se enfeitar e provoca até o aparecimento da lua cheia no céu confuso e soturno, crivado de signos ameaçadores, é porque há uma beleza generosa e solidária na banda, há uma indicação clara para todos, os os que têm responsabilidade de mandar e os que são mandados, os que estão contando dinheiro e os que não o tem para contar e muito menos para gastar, os espertos e os zangados, os vingadores e os ressentidos, os ambiciosos e todos, mas todos os etecéteras que eu poderia alinhar aqui se dispusesse da página inteira.
          Coisas de amor são finezas que se oferecem a qualquer que saiba cultivá-las e distribuí-las, começando por querer que elas floresçam. E não se limitam ao jardinzinho particular de afetos que cobre a área de nossa vida particular; abrange terreno infinito, nas relações humanas, no país como entidade carente de amor, no universo-mundo onde a voz do Papa soa como uma trompa longínqua, chamando o velho fraco, a mocinha feia, o homem sério, o faroleiro... todos que viram a banda passar, e por uns minutos se sentiram melhores. E se o que era doce acabou, depois que a banda passou, que venha outra banda, Chico, e que nunca uma banda como essa deixe de musicalizar a alma da gente.

Profundamente - Manuel Bandeira



Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondo de bombas luzes de bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde

Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

 - Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

  -Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente


Noite de São João - Jorge de Lima



Vamos ver quem é que sabe
soltar fogos de São João?
Foguetes, bombas, chuvinhas,
chios, chuveiros, chiando,
            chiando,
            covendo
            chuvas de fogo!
     Chá  -  Bum!

O delegado proibiu bombas, foguetes, busca-pés.

Chamalotes tcheco-eslavos
           enchem o chão
           de chamas rubras.
Chagas de enxofre chinesas
            chiam,
            choram,
            cheiram,
numa chuva de chispas,
chispas de todos os tons;
listas de todas as cores
            e no fim
            sempre um
Tchi  -  Bum!
Fogueira! Fogueira!
           A menina bonita
           saltou a fogueira
                  de meus olhos.
Meus olhos ficaram
cheios de fumaça de sonho!



quarta-feira, 1 de julho de 2015

O Conto Mais Importante de Todos os Contos



Esta história escrevi com a mão engessada por ter distendido um músculo, e ela começa assim:
Era uma vez uma menina muito pobre, chamada Menipo, que morava em um barracão muito escuro, com telhado de zinco. Seu pai, Severo, era muito rude e cruel, e a menina chorava todos os dias por isso.
Menipo gostava de um garoto. Um dia ela saiu com suas amigas, e todas resolveram ir até o apartamento deste garoto. Daí essa garota comprou um daqueles pirulitos de coração, e mandou suas amigas entregarem para ele. Menipo era muito pobre para lhe comprar outra coisa. Ela ficou com vergonha e se escondeu no banheiro. Mas Tulus (que era o nome do garoto) chegou na porta do banheiro e disse:
            - Foi o melhor presente que ganhei.
Depois desse dia, eles dois começaram a sair, e a mãe de Menipo deu o maior apoio a eles.
De repente, esta menina sou eu! E Menipo vira aqui uma amiga minha.
***
Eu, minha família, Ana Carolina, Menipo e Tulus estávamos em um restaurante chumbrega. Então eu e Ana Carolina fomos lavar as mãos, e Menipo foi junto.  Ana Carolina voltou para a mesa, mas Menipo me mostrou um lugar que parecia o fundo de uma casa, muito úmido e cheio de musgos. Descemos uma escada cheia de plantas, onde havia um corredor com uma torneira. E eu perguntei:
            - Como que você sabe desse lugar?
E ela:
            - Eu sou pobre... Você nunca explorou o fundo das casas? Tem sempre enchente aqui.
Então voltamos para dentro do restaurante, eu achando aqueles últimos instantes muito estranhos e sem sentido. Ao voltarmos, minha irmã tirava sementes de uma melancia com a ponta de uma faca, e o Tulus conversava com meus dois irmãos.
Levamos a casca redonda da melancia que haviamos comido de sobremesa para fora, e ficamos todos brincando de quem chutava mais longe a melancia.
Então, de repente, percebi que o Tulus era apenas um sonho. Mas como ele era MUITO gente boa, nós fomos até um senhorzinho que estava ali por perto escrevendo nomes no arame. Pedi a ele que escrevesse Tulus em um e meu nome em outro.Virei-me para o Tulus e disse que quando eu acordasse, ia mandar gravar seu nome em um arame mesmo, porque eu o amava, e não ia ficar sem ele. Eu iria procurá-lo até encontrar, e esperava que ele também me procurasse. Ele era meu melhor namorado...
E assim, fui embora. Quando acordei, percebi que o Tulus ainda estava comigo. Eu quis que realmente o encontrasse um dia.
Procurei o Tulus por muitos anos, e quando desisti de procurar, fiz dele apenas a minha consciência, aquela voz que precisamos consultar às vezes para tomar decisões, aquela voz que sempre nos aconselha, que quando não temos a quem recorrer, perguntamos a ela o que devemos fazer.
Tulus ficou sendo minha consciência por um bom tempo. Eu já havia até esquecido de procurá-lo, estava dando continuidade à minha vida. Naquela época, eu fazia conservatório musical. Afundei na minha música, e só queria saber de tocar, pois a música me transcendia. E quando eu já nem lembrava mais desta história, quando não estava mais nem aí em encontrar o Tulus, quando nem imaginava sequer em pensar em algo parecido com um relacionamento, eu o encontrei.
Eu diria, na verdade, que foi ele que me encontrou, porque eu já não procurava. Fomos nos reconhecendo aos poucos, a princípio ninguém de nós dois sabia quem era quem. Mas como as coisas na vida são para ser inesperadas como são, o nosso relacionamento foi durando. Fui percebendo que ele era o Tulus, e percebi que ele era muito melhor do que aquele do sonho.
Fiquei muito feliz de tê-lo encontrado. Fiquei mais feliz ainda de ter percebido que é ele, e que ele, assim como eu, não quis ficar longe de mim.

E até hoje estamos juntos, eu e meu Tulus, firmes, fortes. Mas ele ainda não sabe que é o Tulus. Talvez ele nunca saiba. Aqui ele não se chama Tulus, ele tem outro nome. Mas eu também tenho outro nome. O que mais importa é que nós nos encontramos, e agora ficaremos juntos para sempre.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

O Tempo Passou Por Mim... - Guilherme de Almeida

O tempo passou por mim,
mas eu não passei por ele.
Eu sempre fui como aquele
meu recanto de jardim:

- se um amor se desfolhou
como uma rosa sozinha,
foi só por causa da minha
primavera que passou;

se estalou o coração
de uma cigarra indolente,
 foi simplicissimamente
porque passou o verão;

se as folhas partiram sós,
foi que, roçando os seus galhos,
e os meus cabelos grisalhos,
o outono passou por nós;

e se os ninhos já não têm
o doce calor das penas
palpitantes, é que apenas
o inverno passou também.

O tempo passou por mim,
mas eu não passei por ele.
Eu sempre fui como aquele
meu recanto de jardim.


terça-feira, 23 de junho de 2015

Sinfonias - Raimundo Correia

A lua banha a solitária estrada...
Silêncio!...Mas além, confuso e brando,
O som longínquo vem-se aproximando
Do galopar de estranha cavalgada.

São fidalgos que voltam da caçada;
Vêm alegres, vêm rindo, vêm cantando.
E as trompas a soar vão agitando 
O remanso da noite embalsamada...

E o bosque estala, move-se, estremece...
Da cavalgada o estrépito que aumenta
Perde-se após no centro da montanha...

E o silêncio outra vez soturno desce...
E límpida, sem mácula, alvacenta
A lua a estrada solitária banha...

terça-feira, 9 de junho de 2015

"E o Nome Dela Era Érica"



Por incrível que pareça, ela se chamava Érica. Me observava examinando os mínimos detalhes. Loira, quieta na sua, fechada. Não sabia direito se era comportada ou revoltada, roqueira, feiticeira, e agora, banheira. Me imitava. Quase podia vê-la toda de cor de rosa com um allstar roxo andando no meio-fio e cantando Érika Machado. Me penetrava com seu olhar desconfiado, sua expressão receosa... E o nome dela era Érica. O meu nome era Érica. Ela não era eu, tentava, mas não era. E muito menos eu era ela. Seria minha fantasia ali na minha frente? Ela parecia querer me dizer que eu a criara. Será possível a personagem realmente criar vida própria? Sair do pensamento para o papel, e do papel, tornar-se carne e osso? Fiquei assustada, impressionada... e ela fulminava-me com o olhar, tentando dizer algo... Era real? Ou apenas uma coincidência?Traços semelhantes...posso até mesmo enxergar o zíper que abre este disfarce. Mas será realmente possível, ou uma esquizofrenia? Ninguém nunca me contou que eu era assim... Estou com medo e dúvida... o que devo fazer? Quem é ela? Será que é mesmo Érica? Esta história que vos narro realmente acontece, é real. Quem não é real sou eu... e Érica.


"Mulher Feita"


Nova fase nesta vida.
Me desenvolvi
para além de menina-moça,
para além de moça,
para além de mulher.

Evoluí.

Estou pronta às novidades,
blindada de qualquer dificuldade,
pronta para novos passos.

Descer do salto e sair correndo
ou
subir no salto e sair voando.

Uso só vestidos. Terninhos.
Camiseta e calça jeans
nunca mais.
De moça comportada
vou virando mulher,
aberta a qualquer nova oportunidade.
Fácil não é,
sabemos o que é
calçar o salto...
Mas continuo nesse
desenvolvimento
me envolvendo na essência
de mulher feita.


segunda-feira, 8 de junho de 2015

Hinos dos Países de Fala Espanhola

Achei este vídeo interessante porque tem um pedacinho de cada hino e mostra um pouco de cada país de língua espanhola. Muito legal e bonito!


Cristobal Cólon - Oscar de Leon

Velha infância. Quem não lembra da Morgana do Castelo Ratimbum cantando esta música? "La Pinta, la Nina e la Santa Maria!"

Não achei a letra na internet pra deixar aqui...




sexta-feira, 5 de junho de 2015

Aniversário do Minestra



Não, não é o que estão pensando...não tem blog nenhum de aniversário...
Mas poderia ser... estou vendo aqui no arquivo do blog, que ele está com uma boa caminhada já...e pelo que consta pelo menos no arquivo, a primeira postagem que eu fiz aqui, foi no dia 20 de novembro...então se eu lembrar, acho que dá pra começar a comemorar o aniversário dele...afinal, a maioria das minhas coisas fazem aniversário, creiam-me...por exemplo, a Maria Antonieta, carinhosamente conhecida como Mari, que é a minha biz vermelhinha, baixinha, temperamental e invocada, igualzinha à dona, fez um ano neste ano de 2015, no dia 07 de fevereiro!!
Outra hora mostro a minha companheirinha de viagem por aqui pra vocês, ela é tão linda quanto a dona ;)
Mas não quero ficar falando da Mari, vim falar do Minestra mesmo, e dizer que acho que é hora de comemorar o aniversário dele...não porque todo mundo que tenha blog comemore os aniversários, mas porque como esse blog tem vida própria (às vezes tô dormindo à noite e meu blog sai andando do computador, vai no banheiro, bebe uma água...), e coisas que têm vida própria sempre fazem aniversário, é incrível...
Mas não vão pensando que é igual no Natal, que quem faz aniversário é Jesus e quem ganha presente são todas as outras pessoas que não têm nada a ver com a história...No dia do aniversário do Minestra, o que eu vou fazer é colocar alguma postagem comemorativa, algumas palavras de pêsame ( quando ninguém lembrar dele) e de euforia (quando tiver a fim, tem que fazer festa). Nada daquilo de fazer promoção, e dar prêmios para leitores, e todas essas coisas de "blog"...Está bem claro que o Minestra de Letrinhas não é propriamente um blog, e não tenho interesse nenhum em ficar paparicando leitores não. Se gosta de mim, gosta. Se não gosta azar, eu não vou ficar obrigando a voltar sempre no blog, mesmo porque nem implorando adianta, ninguém comenta, ninguém participa, uma vez que outra aparece algum comentário-alma penada por aqui, então porta-me lá com leitor...
(Quer ver que depois disso vai ter um monte de gente que vai deixar de seguir o blog? Nem tô, se tiver 42, cem, 1 ou nenhum leitor no meu blog, tô pouco me lixando, não tô aqui pra agradar ninguém, e muito menos o Minestra.)
Obrigada aos leitores fieis que me conhecem já, e conhecem também o blog, e não se sentem ofendidos com isso, porque sabem que não tem nada pessoal. Obrigada por continuarem suas críticas!

E fechando nosso assunto, então, esse ano vamos comemorar o primeiro aniversário do blog, que não vai fazer um ano não, mas vai ter sua primeira festa!! Estamos combinados de fazer esta festa no dia 20 de novembro...E pelamordedeus...não façam eu passar vexame, pelo menos no aniversário do Minestra, deixem um mísero parabéns a ele né, coitado, que alegra tanto a vida de vocês, pelo menos um abracinho ele tem que ganhar né...um mísero "oi, parabéns"...
Obrigada pela compreensão de todos vocês, caros leitores.
Abraços, até breve!

Livros para Ler Antes de Morrer



Já fiz isso aqui no blog há algum tempo, lembro bem...Mas esses dias fui à uma palestra de uma professora que apresentou um projeto muito bacana para seus alunos desenvolverem o gosto pela leitura (e que outra hora eu explico aqui). Aí essa professora, que se chama Fabiana, disse que ela deu liberdade aos alunos para escolherem os livros que queriam ler. Mas um deles não sabia o que ler, então colocou no google assim: "Livros que tenho que ler antes de morrer".
Eu fiquei curiosa para saber quais os livros que o google recomenda antes de morrer e pesquisei também. E fiquei horrorizada! Deus me livre, se temos que ler alguns dos livros que nos recomendam antes de morrer, prefiro não ler!!
A partir deste tamanho desgosto, resolvi refazer esta lista com alguns livros que eu já li e leria de novo...Aí vai:


  1. Maneco Caneco Chapéu de Funil - Luís Camargo
  2. Jim Knopf e Lucas, o Maquinista - Michael Ende
  3. Jim Knopf e Os Treze Piratas - Michael Ende
  4. A História Sem Fim - Michael Ende
  5. O Jardim da Meia-Noite  -Phillippa Pearce
  6. Os seis livros de  A Sétima Torre (O Castelo, A Queda, Aenir, Acima do Véu, Em Guerra e A Grande Pedra Violeta) - Garth Nix
  7. A História da Minha Vida - Tex Willer - Não sei o autor
  8. A Aventura da Escrita - Lia Zatz
  9. O Caso do Gato do Porteiro - Erle Stanley Gardner
  10. A Culpa é das Estrelas - John Green
  11. A Moreninha - Joaquim Manuel de Macedo
  12. A Tulipa Negra - Alexandre Dumas...
  13. Os Trabalhadores do Mar - Victor Hugo
  14. Capitão Tormenta - Emílio Salgari
  15. A Bolsa Amarela - Lygia Bojunga
  16. O Menino do Dedo Verde - Maurice Druon
  17. O Pequeno Príncipe - Saint Èxupery
  18. Quero Um Amor Para a Vida Toda - Diego Fernandes
  19. A Ilha do Tesouro - Robert Louis Stevenson
  20. Salada de Frutas - Mirna Forti
  21. Os Três Mosqueteiros - Alexandre Dumas
  22. Todos os livros do Senhor dos Anéis, inclusive O Hobbit - J. R. R. Tolkien
  23. O Retrato de Dorian Grey - Oscar Wilde
  24. O Futuro da Humanidade - Augusto Cury
  25. Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis
  26. Dom Casmurro - Machado de Assis
  27. As Crônicas de Nárnia - Clive Staples Lewis
  28. Fantoches e Outros Contos -Érico Veríssimo
  29. Breve História da Literatura Brasileira - Érico Veríssimo
  30. O Amor Esquece de Começar - Fabrício Carpinejar
  31. Todos os livros de Harry Potter - J.K. Rowling
  32. Anna e o Beijo Francês - Stephanie Perkins
  33. Um Porto Seguro - Nicholas Sparks


Só quero dizer que não está numa ordem de leitura, fui colocando conforme lembrava, lógico que os primeiros estão numa certa ordem porque os favoritos sempre lembramos primeiro...mas não precisa seguir nenhuma ordem porque todos eles eu já li, leria ou vou ler de novo.
Não tenho distinção de livro de criança, de livro de romance, de terror ou de qualquer outra coisa. Porta-me lá se alguém pensa que algum desses é ridículo. Eu gosto, e se quiser leio de novo quantas vezes quiser, igual ao Jim Knopf, O Jardim da Meia-Noite e o Quero Um Amor Para a Vida Toda, que no mínimo cinco vezes cada eu já li. Fora com preconceito, e se forem espertos, leiam todos esses! Boa leitura! Não morra antes de acabar essa lista...

Garden of Praise

Recomendo!!
A quem trabalha com biografias com crianças, com atividades em inglês, ensino da bíblia, ou a quem simplesmente ficar interessado...
Este site é totalmente mágico e lindo neste sentido!!
Mas claro, como nem tudo é perfeito, ele é em inglês...
Vale a pena conferir, nem que não saiba inglês, dá uma passeada por lá só para ver como ele é bonito, fofo e bem bolado... ^^



quinta-feira, 4 de junho de 2015

El Perrito de Rita

El perrito de Rita
me irrita.
Se el perrito de Rita
te irrita,
peça a Rita 
para trocar su perrito
por una perrita.

Traquinagem - Menino de Engenho - José Lins do Rego

    A estrada de ferro passava no outro lado do rio. Do engenho nós ouvíamos o trem apitar, e fazia-se de sua passagem uma espécie de relógio de todas as atividades: antes do trem das dez, depois do trem das duas.
    Costumávamos ir para a beira da linha ver de perto os trens de passageiros. E ficávamos de cima dos cortes olhando como se fossem uma coisa nunca vista os horários que vinham de Recife e voltavam da Paraíba. Mas nos proibiam esse espetáculo com medo das nossas traquinagens pelo leito da estrada. E tinha razão de ser tanta cautela: um dos lances mais agoniados da minha infância eu passei numa dessas esperas de trem. O meu primo Silvino combinara em fazer virar a máquina na rampa do Caboclo. Já outra vez, com um pano vermelho que um moleque pregara num pau, um maquinista parara o horário das dez. Agora o que meu primo queria era um desastre. E botou uma pedra bem na curva da rampa. Nós ficamos de espreita, esperando a hora. Quando vi o trem se aproximar como um bicho comprido que viesse para uma armadilha, deu-me uma agonia dentro de mim que eu não soube explicar. Parecia que eu ia ver ali perto de mim pedaços de gente morta, cabeças rolando pelo chão, sangue correndo no meio de ferros desmantelados. E num ímpeto, com o trem que vinha roncando pertinho, corri para a pedra e com toda a minha força empurrei-a pra fora. Um instante mais ouvi o ruído da máquina que passava.

Passeio Pela Praia - Capítulo 4 de A Montanha Mágica, de Thomas Mann



Pode-se narrar o tempo, o próprio tempo, o tempo como tal e em si?Não, isso seria deveras uma empresa tola. Uma história que rezasse: "O tempo decorria, escoava-se, seguia o seu curso" e assim por diante - nenhum homem de espírito são poderia considerá-la história.Seria como se alguém tivesse a ideia maluca de manter durante uma hora um mesmo tom ou acorde e afirmasse ser isso música.Pois a narrativa se parece com a música no sentido de que ambas dão um conteúdo ao tempo; "enchem-no de uma forma decente", "assinalam-no" e fazem com que ele "tenha algum valor próprio" e que "nele aconteça alguma coisa", para citarmos, com a melancólica piedade que se costuma devotar aos ditos defuntos, algumas observações ocasionais do saudoso Joachim, palavras essas que há muito se perderam no espaço; nem sabemos se o leitor é capaz de dizer claramente quanto tempo se passou desde que foram pronunciadas. O tempo é o elemento da narrativa, assim como é o elemento da vida; está inseparavelmente ligado a ela, como aso corpos no espaço. É também o elemento da música, que o mede e subdivide, carregando-o  de interesse e tornando-o precioso. Nesse ponto, como já mencionamos, assemelha-se à narrativa e difere da obra de arte plástica que surge diante de nós de uma vez, em todo o seu esplendor, e não se acha relacionada com o tempo senão à maneira de todos os corpos. A narrativa, porém, não se pode apresentar senão sob a forma de uma sequência de fatos, como algo que se desenvolve, e necessita intimamente do tempo, mesmo que deseje estar toda presente a cada instante que transcorre.

Hipopótamo - Olavo Bilac

Queria encontrar o poema inteiro, procurei de todo modo na internet e não achei, então vai só essa parte mesmo...Se alguém encontrar o poema inteiro, por favor, me avise, eu preciso dele.

A rugosa couraça, e
espedaçando os troncos
Das árvores, lá vão; e
hipopótamos broncos
De túmido focinho e orelhas eriçadas,
Batem pausadamente as
patas compassadas.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Diálogo 70

Aqueles dias
de vento,
e a televisão do
micro-ônibus
não funciona.
Fica estática.

Brilhante



Foi você quem me fez mulher.

O que faz a Flor crescer
é a chuva, mas
o que a faz bela e perfumada
são os Raios de Sol.
Assim como são 
os mesmos Raios de Sol
que iluminam a Lua,
solitária no céu estrelado,
e a fazem brilhar.

Foi você quem me fez brilhar.

O Sol brilha sempre, nunca se apaga, 
é o astro, a estrela que ilumina
todo o Sistema Solar.
Desde a menor estrelinha,
até a Lua solitária,
e todo esse brilho ilumina
toda a Terra.

Foi você quem me faz tão feliz.

Foi você.
É você.
É você que me faz completa.
É você que me faz amar tanto.

Você é o Raio de Sol 
que ilumina todos os dias
da minha vida.

Você ilumina meu caminho,
ilumina meu jardim, 
ilumina esta Flor,
ilumina este Satélite,
você ilumina toda a Terra
e me faz refletir o seu brilho.

É você quem me faz mais mulher.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Um Aniversário Para Nunca Mais Esquecer



  Este ano ganhei um presente enorme de aniversário, do meu namorado Leonel Augusto. Ganhei ingressos para participar de um encontro com o Ziraldo, que ocorreu na X Feira Literária e do Livro de Poços de Caldas, de 25 de abril a 03 de maio. 
   No dia 26 de abril, Ziraldo bateu um papo com os que estavam presentes, falando um pouco sobre sua vida, suas obras, e abrindo espaço para as crianças fazerem perguntas.Ele contou como se iniciou sua carreira, de onde surgiram suas ideias e personagens, o que o levou a ser cartunista e escritor infantil e tantos outros assuntos relacionados  à sua obra e carreira. Foi um momento muito proveitoso, o escritor é um homem bem-humorado, irônico, com uma visão muito bonita do que é escrever para crianças.Foi realmente um bate-papo muito incrível.


  Fiquei um pouco desesperada achando que não conseguiríamos participar, pois aconteceram alguns probleminhas técnicos com os ingressos na hora de entrar no teatro da Urca, mas no fim deu tudo certo, sentamos eu e o Leonel bem na frente, bem pertinho do autor.


  Explicando as fotos que aí vocês veem, ao final do bate-papo, ele sorteou alguns livros de sua autoria. Ele falou o dia e o mês, e quem fizesse aniversário naquele dia, ganhava o livro. Eu disse pro Leonel, que ele nunca ia falar 26/04, porque era o dia em que estávamos.Mas não é que o primeiro dia que ele falou foi mesmo o do meu aniversário?
Neste momento já fizemos aquela festa, gritamos, todos felizes...Na hora de pegar o livro, ele me chamou lá no palco, abraçou, beijou, conversou, perguntou de onde eu era, e ainda convidou a plateia toda pro meu aniversário hahah...Foi muito legal!
Vou colocar o vídeo aqui para os mais curiosos...hehe.



O livro que ganhei, óbvio, é do Menino Maluquinho e sua turma, e se chama "Aventuras Muito Maluquinhas".
E para aqueles "São Tomé", que só acreditam vendo e ouvindo, apesar das fotos, aqui está o vídeo:


Trem de Ferro - Manuel Bandeira

Café com pão
Café com pão
Café com pão

Virge Maria que foi isto maquinista?

Agora sim
Café com pão
Agora sim
Café com pão
Voa, fumaça
Corre, cerca

Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força

Ôô...
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa ponte
Passa poste
Passa pasto
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
De ingazeira
Debruçada
No riacho
Que vontade
De cantar!
...


Sorôco, Sua Mãe, Sua Filha - Primeiras Histórias - Guimarães Rosa

Guimarães Rosa tinha certa preocupação com a loucura, pois trabalhou em um hospital psiquiátrico.Ele tinha medo de ficar louco e rezava para não perder a razão.
Além disso, ele era míope.Isso o fez detalhista, pois via tudo muito de perto.


   Aquele carro parara na linha de resguardo, desde a véspera, tinha vindo com o expresso do Rio, e estava lá, no desvio de dentro, na esplanada da estação. Não era um vagão comum de passageiros, de primeira, só que mais vistoso, todo novo.A gente reparando, notava as diferenças.Assim repartido em dois, num dos cômodos as janelas sendo de grades, feito as de cadeia, para os presos.A gente sabia que, com pouco, ele ia rodar de volta, atrelado ao expresso daí de baixo, fazendo parte da composição.Ia servir para levar duas mulheres, para longe, para sempre. O trem do sertão passava às 12h45m.
   As muitas pessoas já estavam de ajuntamento,em beira do carro, para esperar.As pessoas não queriam poder ficar se entristecendo, conversavam, cada um porfiando no falar com sensatez, como sabendo mais do que os outros a prática do acontecer das coisas. Sempre chegava mais povo - o movimento.Aquilo quase no fim da esplanada, do lado do curral de embarque de bois, antes da guarita do guarda-chaves, perto dos empilhados de lenha. Sorôco ia trazer as duas, conforme. A mãe de Sorôco era de idade, com para mais de uns setenta. A filha, ele só tinha aquela. Sorôco era viúvo. Afora essas, não se conhecia dele o parente nenhum.
   A hora era de muito sol - o povo caçava jeito de ficarem debaixo da sombra das árvores de cedro. O carro lembrava um canoão no seco, navio.A gente olhava: nas reluzências do ar,parecia que ele estava torto, que nas pontas se empinava.O borco bojudo do telhadilho dele alumiava em preto.Parecia coisa de invento de muita distância, sem piedade nenhuma, e que a gente não pudesse imaginar direito nem se acostumar de ver, e não sendo de ninguém.Para onde ia, no levar as mulheres, era para um lugar chamado Barbacena, longe. Para o pobre, os lugares são mais longe.
   O Agente da estação apareceu, fardado de amarelo,com o livro de capa preta e as bandeirinhas verde e vermelha debaixo do braço. - "Vai ver se botaram água fresca no carro..." - ele mandou. Depois, o guarda-freios andou mexendo nas mangueiras de engate. Alguém deu aviso: - "Eles vêm!..." Apontavam, da Rua de Baixo, onde morava Sorôco. Ele era um homenzarrão, brutalhudo de corpo, com a cara grande, uma barba, fiosa, encardida em amarelo, e uns pés, com alpercatas: as crianças tomavam medo dele; masi, da voz, que era quase pouca, grossa, que em seguida se afinava. Vinham vindo, com o trazer de comitiva.
   Aí, paravam. A filha - a moça - tinha pegado a cantar, levantando os braços, a cantiga não vigorava certa, nem no tom nem no se dizer das palavras - o nenhum. A moça punha os olhos no alto, que nem os santos e os espantados, vinha enfeitada de disparates, num aspecto de admiração. Assim com panos e papéisa, de diversas cores, uma carapuça em cima dos espalhados cabelos, e enfunada em tantas roupas ainda de mais misturas, tiras e faixas, dependuradas - virundangas: matéria de maluco.A velha só estava de preto, com um fichu preto, ela batia com a cabeça, nos docementes. Sem tanto que diferentes, elas se assemelhavam.
   Sorôco estava dando o braço a elas, uma de cada lado.Em mentira, parecia entrada em igreja, num casório.Era uma tristeza. Parecia enterro.Todos ficavam de parte, a chusma de gente não querendo afirmar as vistas, por causa daqueles trasmodos e despropósitos, de fazer risos, e por conta de Sorôco - para não parecer pouco caso.Ele hoje estava calçado de botinas, e de paletó, com chapéu grande, botara sua roupa melhor, os maltrapos.E estava reportado e atalhado, humildoso. Todos diziam a ele seus respeitos, de dó. Ele respondia: - "Deus vos pague essa despesa..."
   O que os outros se diziam: que Sorôco tinha tido muita paciência.Sendo que não ia sentir falta dessas transtornadas pobrezinhas, era até um alívio. Isso não tinha cura, elas não iam voltar, nunca mais.De antes, Sorôco aguentara de repassar tantas desgraças, de morar com as duas, pelejava. Daí, com os anos, elas pioraram, ele não dava mais conta, teve de chamar ajuda, que foi preciso. Tiveram que olhar em socorro dele, determinar de dar as providências, de mercê. Quem pagava tudo era o Governo, que tinha mandado o carro. Por forma que, por força disso, agora iam remir com as duas, em hospícios. O se seguir.
  De repente, a velha se desapareceu do braço de Sorôco, foi se sentar no degrau da escadinha do carro. - "Ela não faz nada, seo Agente..." - a voz de Sorôco estava muito branda: - "Ela não acode, quando a gente chama..." A moça, aí, tornou a cantar, virada para o povo, o ao ar, a cara dela era um repouso estatelado, não queria dar-se em espetáculo, mas representava de outroras grandezas,impossíveis. Mas a gente viu a velha olhar para ela, com um encanto de pressentimento muito antigo - um amor extremoso.E, principiando baixinho, mas depois puxando pela voz, ela pegou a cantar, também, tomando o exemplo, a cantiga mesma da outra, que ninguém não entendia.Agora elas cantavam junto, não paravam de cantar.
   Aí que já estava chegando a horinha do trem, tinham de dar fim aos aprestes, fazer as duas entrar para o carro de janelas enxequetadas de grades.Assim, num consumiço, sem despedida nenhuma, que elas nem haviam de poder entender.Nessa diligência, os que iam com elas, por bem-fazer, na viagem comprida, eram o Nenêgo, despachado e animoso, e o José Abençoado, pessoa de muita cautela, estes serviam para ter mão nelas, em toda juntura.E subiam também no carro uns rapazinhos, carregando as trouxas e malas, e as coisas de comer, muitas, que não iam fazer míngua, os embrulhos de pão. Por derradeiro, o Nenêgo ainda se apareceu na plataforma, para os gestos de que tudo ia em ordem.Elas não haviam de dar trabalhos.
   Agora, mesmo, a gente só escutava era o acorçôo do canto, das duas, aquela chirimia, que avocava: que era um constado de enormes diversidades desta vida, que podiam doer na gente, sem jurisprudência de motivo nem lugar, nenhum, mas pelo antes, pelo depois.
   Sorôco.
   Tomara aquilo se acabasse.O trem chegando, a máquina manobrando sozinha para vir pegar o carro. O trem apitou, e passou, se foi, o de sempre.
   Sorôco não esperou tudo se sumir.Nem olhou. Só ficou de chapéu na mão, mais de barba quadrada, surdo - o que nele mais espantava.O triste do homem, lá, decretado, embargando-se de poder falar algumas suas palavras. Ao sofrer o assim das coisas, ele, no oco sem beiras, debaixo do peso, sem queixa, exemploso. E lhe falaram: - "O mundo está dessa forma..." Todos, no arregalado respeito, tinham as vistas neblinadas.De repente, todos gostavam demais de Sorôco.
   Ele se sacudiu, de um jeito arrebentado, desacontecido, e virou, pra ir-s'embora.Estava voltando para casa, como se estivesse indo para longe, fora de conta.
   Mas, parou. Em tanto que se esquisitou, parecia que ia perder o de si, parar de ser.Assim num excesso de espírito, fora de sentido. E foi o que não se podia prevenir:quem ia fazer siso naquilo?Num rompido - ele começou a cantar, alteado, forte, mas sozinho para si - e era a cantiga, mesma, de desatino, que as duas tanto tinham cantado. Cantava continuando.
   A gente se esfriou, se afundou - um instantâneo.A gente...E foi sem combinação, nem ninguém entendia o que fizesse: todos, de uma vez, de dó do Sorôco, principiaram também a acompanhar aquele canto sem razão.E com as vozes tão altas! Todos caminhando, com ele, Sorôco, e canta que cantando, atrás dele, os mais de detrás quase que corriam, ninguém deixasse de cantar.Foi o de não sair mais da memória. Foi um caso sem comparação.
   A gente estava levando agora o Sorôco para a casa dele, de verdade. A gente, com ele, ia até aonde que ia aquela cantiga.