quinta-feira, 21 de maio de 2015

Um Aniversário Para Nunca Mais Esquecer



  Este ano ganhei um presente enorme de aniversário, do meu namorado Leonel Augusto. Ganhei ingressos para participar de um encontro com o Ziraldo, que ocorreu na X Feira Literária e do Livro de Poços de Caldas, de 25 de abril a 03 de maio. 
   No dia 26 de abril, Ziraldo bateu um papo com os que estavam presentes, falando um pouco sobre sua vida, suas obras, e abrindo espaço para as crianças fazerem perguntas.Ele contou como se iniciou sua carreira, de onde surgiram suas ideias e personagens, o que o levou a ser cartunista e escritor infantil e tantos outros assuntos relacionados  à sua obra e carreira. Foi um momento muito proveitoso, o escritor é um homem bem-humorado, irônico, com uma visão muito bonita do que é escrever para crianças.Foi realmente um bate-papo muito incrível.


  Fiquei um pouco desesperada achando que não conseguiríamos participar, pois aconteceram alguns probleminhas técnicos com os ingressos na hora de entrar no teatro da Urca, mas no fim deu tudo certo, sentamos eu e o Leonel bem na frente, bem pertinho do autor.


  Explicando as fotos que aí vocês veem, ao final do bate-papo, ele sorteou alguns livros de sua autoria. Ele falou o dia e o mês, e quem fizesse aniversário naquele dia, ganhava o livro. Eu disse pro Leonel, que ele nunca ia falar 26/04, porque era o dia em que estávamos.Mas não é que o primeiro dia que ele falou foi mesmo o do meu aniversário?
Neste momento já fizemos aquela festa, gritamos, todos felizes...Na hora de pegar o livro, ele me chamou lá no palco, abraçou, beijou, conversou, perguntou de onde eu era, e ainda convidou a plateia toda pro meu aniversário hahah...Foi muito legal!
Vou colocar o vídeo aqui para os mais curiosos...hehe.



O livro que ganhei, óbvio, é do Menino Maluquinho e sua turma, e se chama "Aventuras Muito Maluquinhas".
E para aqueles "São Tomé", que só acreditam vendo e ouvindo, apesar das fotos, aqui está o vídeo:


Trem de Ferro - Manuel Bandeira

Café com pão
Café com pão
Café com pão

Virge Maria que foi isto maquinista?

Agora sim
Café com pão
Agora sim
Café com pão
Voa, fumaça
Corre, cerca

Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força

Ôô...
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa ponte
Passa poste
Passa pasto
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
De ingazeira
Debruçada
No riacho
Que vontade
De cantar!
...


Sorôco, Sua Mãe, Sua Filha - Primeiras Histórias - Guimarães Rosa

Guimarães Rosa tinha certa preocupação com a loucura, pois trabalhou em um hospital psiquiátrico.Ele tinha medo de ficar louco e rezava para não perder a razão.
Além disso, ele era míope.Isso o fez detalhista, pois via tudo muito de perto.


   Aquele carro parara na linha de resguardo, desde a véspera, tinha vindo com o expresso do Rio, e estava lá, no desvio de dentro, na esplanada da estação. Não era um vagão comum de passageiros, de primeira, só que mais vistoso, todo novo.A gente reparando, notava as diferenças.Assim repartido em dois, num dos cômodos as janelas sendo de grades, feito as de cadeia, para os presos.A gente sabia que, com pouco, ele ia rodar de volta, atrelado ao expresso daí de baixo, fazendo parte da composição.Ia servir para levar duas mulheres, para longe, para sempre. O trem do sertão passava às 12h45m.
   As muitas pessoas já estavam de ajuntamento,em beira do carro, para esperar.As pessoas não queriam poder ficar se entristecendo, conversavam, cada um porfiando no falar com sensatez, como sabendo mais do que os outros a prática do acontecer das coisas. Sempre chegava mais povo - o movimento.Aquilo quase no fim da esplanada, do lado do curral de embarque de bois, antes da guarita do guarda-chaves, perto dos empilhados de lenha. Sorôco ia trazer as duas, conforme. A mãe de Sorôco era de idade, com para mais de uns setenta. A filha, ele só tinha aquela. Sorôco era viúvo. Afora essas, não se conhecia dele o parente nenhum.
   A hora era de muito sol - o povo caçava jeito de ficarem debaixo da sombra das árvores de cedro. O carro lembrava um canoão no seco, navio.A gente olhava: nas reluzências do ar,parecia que ele estava torto, que nas pontas se empinava.O borco bojudo do telhadilho dele alumiava em preto.Parecia coisa de invento de muita distância, sem piedade nenhuma, e que a gente não pudesse imaginar direito nem se acostumar de ver, e não sendo de ninguém.Para onde ia, no levar as mulheres, era para um lugar chamado Barbacena, longe. Para o pobre, os lugares são mais longe.
   O Agente da estação apareceu, fardado de amarelo,com o livro de capa preta e as bandeirinhas verde e vermelha debaixo do braço. - "Vai ver se botaram água fresca no carro..." - ele mandou. Depois, o guarda-freios andou mexendo nas mangueiras de engate. Alguém deu aviso: - "Eles vêm!..." Apontavam, da Rua de Baixo, onde morava Sorôco. Ele era um homenzarrão, brutalhudo de corpo, com a cara grande, uma barba, fiosa, encardida em amarelo, e uns pés, com alpercatas: as crianças tomavam medo dele; masi, da voz, que era quase pouca, grossa, que em seguida se afinava. Vinham vindo, com o trazer de comitiva.
   Aí, paravam. A filha - a moça - tinha pegado a cantar, levantando os braços, a cantiga não vigorava certa, nem no tom nem no se dizer das palavras - o nenhum. A moça punha os olhos no alto, que nem os santos e os espantados, vinha enfeitada de disparates, num aspecto de admiração. Assim com panos e papéisa, de diversas cores, uma carapuça em cima dos espalhados cabelos, e enfunada em tantas roupas ainda de mais misturas, tiras e faixas, dependuradas - virundangas: matéria de maluco.A velha só estava de preto, com um fichu preto, ela batia com a cabeça, nos docementes. Sem tanto que diferentes, elas se assemelhavam.
   Sorôco estava dando o braço a elas, uma de cada lado.Em mentira, parecia entrada em igreja, num casório.Era uma tristeza. Parecia enterro.Todos ficavam de parte, a chusma de gente não querendo afirmar as vistas, por causa daqueles trasmodos e despropósitos, de fazer risos, e por conta de Sorôco - para não parecer pouco caso.Ele hoje estava calçado de botinas, e de paletó, com chapéu grande, botara sua roupa melhor, os maltrapos.E estava reportado e atalhado, humildoso. Todos diziam a ele seus respeitos, de dó. Ele respondia: - "Deus vos pague essa despesa..."
   O que os outros se diziam: que Sorôco tinha tido muita paciência.Sendo que não ia sentir falta dessas transtornadas pobrezinhas, era até um alívio. Isso não tinha cura, elas não iam voltar, nunca mais.De antes, Sorôco aguentara de repassar tantas desgraças, de morar com as duas, pelejava. Daí, com os anos, elas pioraram, ele não dava mais conta, teve de chamar ajuda, que foi preciso. Tiveram que olhar em socorro dele, determinar de dar as providências, de mercê. Quem pagava tudo era o Governo, que tinha mandado o carro. Por forma que, por força disso, agora iam remir com as duas, em hospícios. O se seguir.
  De repente, a velha se desapareceu do braço de Sorôco, foi se sentar no degrau da escadinha do carro. - "Ela não faz nada, seo Agente..." - a voz de Sorôco estava muito branda: - "Ela não acode, quando a gente chama..." A moça, aí, tornou a cantar, virada para o povo, o ao ar, a cara dela era um repouso estatelado, não queria dar-se em espetáculo, mas representava de outroras grandezas,impossíveis. Mas a gente viu a velha olhar para ela, com um encanto de pressentimento muito antigo - um amor extremoso.E, principiando baixinho, mas depois puxando pela voz, ela pegou a cantar, também, tomando o exemplo, a cantiga mesma da outra, que ninguém não entendia.Agora elas cantavam junto, não paravam de cantar.
   Aí que já estava chegando a horinha do trem, tinham de dar fim aos aprestes, fazer as duas entrar para o carro de janelas enxequetadas de grades.Assim, num consumiço, sem despedida nenhuma, que elas nem haviam de poder entender.Nessa diligência, os que iam com elas, por bem-fazer, na viagem comprida, eram o Nenêgo, despachado e animoso, e o José Abençoado, pessoa de muita cautela, estes serviam para ter mão nelas, em toda juntura.E subiam também no carro uns rapazinhos, carregando as trouxas e malas, e as coisas de comer, muitas, que não iam fazer míngua, os embrulhos de pão. Por derradeiro, o Nenêgo ainda se apareceu na plataforma, para os gestos de que tudo ia em ordem.Elas não haviam de dar trabalhos.
   Agora, mesmo, a gente só escutava era o acorçôo do canto, das duas, aquela chirimia, que avocava: que era um constado de enormes diversidades desta vida, que podiam doer na gente, sem jurisprudência de motivo nem lugar, nenhum, mas pelo antes, pelo depois.
   Sorôco.
   Tomara aquilo se acabasse.O trem chegando, a máquina manobrando sozinha para vir pegar o carro. O trem apitou, e passou, se foi, o de sempre.
   Sorôco não esperou tudo se sumir.Nem olhou. Só ficou de chapéu na mão, mais de barba quadrada, surdo - o que nele mais espantava.O triste do homem, lá, decretado, embargando-se de poder falar algumas suas palavras. Ao sofrer o assim das coisas, ele, no oco sem beiras, debaixo do peso, sem queixa, exemploso. E lhe falaram: - "O mundo está dessa forma..." Todos, no arregalado respeito, tinham as vistas neblinadas.De repente, todos gostavam demais de Sorôco.
   Ele se sacudiu, de um jeito arrebentado, desacontecido, e virou, pra ir-s'embora.Estava voltando para casa, como se estivesse indo para longe, fora de conta.
   Mas, parou. Em tanto que se esquisitou, parecia que ia perder o de si, parar de ser.Assim num excesso de espírito, fora de sentido. E foi o que não se podia prevenir:quem ia fazer siso naquilo?Num rompido - ele começou a cantar, alteado, forte, mas sozinho para si - e era a cantiga, mesma, de desatino, que as duas tanto tinham cantado. Cantava continuando.
   A gente se esfriou, se afundou - um instantâneo.A gente...E foi sem combinação, nem ninguém entendia o que fizesse: todos, de uma vez, de dó do Sorôco, principiaram também a acompanhar aquele canto sem razão.E com as vozes tão altas! Todos caminhando, com ele, Sorôco, e canta que cantando, atrás dele, os mais de detrás quase que corriam, ninguém deixasse de cantar.Foi o de não sair mais da memória. Foi um caso sem comparação.
   A gente estava levando agora o Sorôco para a casa dele, de verdade. A gente, com ele, ia até aonde que ia aquela cantiga.


terça-feira, 19 de maio de 2015

Frases Interessantes de Diversas Pessoas

"A vida é muito curta para ser pequena."



"Se aprender é construir, devemos considerar os múltiplos aspectos, sócio-afetivos, desta construção."


"A aprendizagem contribui para o desenvolvimento integral do ser e não pode se reduzir a cópias ou reproduções de uma realidade."


"O ponto de vista é a vista de um ponto."


"Escrever é uma necessidade premente de jogar as palavras para fora. É um ' fluxo de consciência' inconsciente."


"Um poder que se serve, ao invés de servir, é um poder que não serve."


"Lembra-te de que és mortal."


"O homem é um cadáver adiado."


"O homem é um caniço pensante."



"À razão da sem razão que a minha razão se faz, de tal maneira enfraquece, que com razão me queixo da vossa formosura."

"A literatura registra as modificações da sociedade."


"Somos o que falamos. Nos construímos através do que falamos."


"O Conto de Fadas é um iceberg: o que vemos é a sua ponta, mas o mais importante é o que não se vê."


"O Conto de Fadas fala dos ingredientes do bolo mas não dá a receita."


quinta-feira, 14 de maio de 2015

E Começa a Viajar... - Anibal Machado

      

 Ei-lo finalmente diante da locomotiva: - Ah!
        Carecia de energia bastante para ver aquilo, não estava em idade de aproximar-se de tão poderosa coisa. O coração batia-lhe forte. E se ela apitasse de repente, se mexesse e desandasse - que seria dele ali dentro, sozinho, com o monstro cujas intenções desconhecia?
         Na verdade a locomotiva aparentava calma. Mas ele sabia que sua índole era violenta, a prova estava na fúria com que subia a serra e fazia estremecer os pontilhões. Quantos bois já não esmigalhara. Entretanto, pelo que parecia, ou estava distraída no momento, ou era mesmo mansa.
        Ternura foi fazendo intimidade. Tocou-a com o dedo, sentiu um arrepio. O seu dedo na pele do gigante!
        - Não bula menino! - gritou o guarda-chaves. O homem vinha metido num macacão sujo de graxa.
        O menino assustou-se; depois recobrou alento.A locomotiva, que era locomotiva, não se importava... Agora aquele sujeito vinha-se meter a besta!...
       Tornou a espiar de perto. Quanta peça entrelaçada. Alguns tubos vinham de longe, encurvavam-se, de repente afundavam nos intestinos do gigante e repontavam vermelhos; as rodas da frente, de tão pequenas, pareciam de brinquedo; as outras, as que esmagavam os bois, metiam medo. Eixos, manivelas, bielas, cilindros, pistões e, no meio, o bojo do fogo. Ternura deu a volta, foi observar de frente.
       - Ih! Olho medonho!...
        Novo arrepio. Vista de frente, parecia que a máquina vinha devorá-lo em grande velocidade. A chaminé exalava fiapinhos de fumaça.
        Acamaradado com a locomotiva, com a sua locomotiva, Ternura, meio pálido ainda, sentou-se no limpa-trilhos.
       Buliu num parafuso. O monstro não se importou. Ternura fecha os olhos e começa a viajar...

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Besta Ladrador

A Besta Ladrador é um ser da mitologia Celta, presente na Demanda do Santo Graal, que conta a história do rei Arthur Pendragon e seus cavaleiros. 

Diz-se que esta besta só pode ser vista e ouvida por aqueles que já cometeram pecado em suas vidas. Proveniente da união de uma princesa com o próprio demônio, a besta teria uma cauda de leão, corpo de leopardo, cabeça de serpente e cascos de veado, correndo atrás sempre dos cavaleiros que estão em busca do Santo Graal.

Segundo textos da Demanda, esta fera é ouvida de longe, pois seus gritos se assemelham a trinta cães latindo juntos, e os próprios cavaleiros não sabiam dizer se eram realmente cachorros ou se a besta estava em seu encalço.

Na Demanda do Santo Graal encontram-se diversos contos em que a fera está presente, e todos os cavaleiros tentam encontrá-la e matá-la, mas apenas Palamades consegue este feito, e fica conhecido como Palamades, o cavaleiro da Besta.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Tutameia - Terceiras Estórias - João Guimarães Rosa

Esses Lopes
    Má gente, de má paz; deles quero distantes léguas.Mesmo de meus filhos, os três. Livre, por velha nem revogada não me dou, idade é a qualidade. Amo um homem, ele vive de admirar meus bons préstimos, boca cheia d'água.Meu gosto agora é ser feliz, em uso, no sofrer e no regalo.Quero falar alto. Lopes nenhum me venha, que às dentadas escorraço.Para trás, o que passei, foi arremedando e esquecendo.Ainda achei o fundo do meu coração. A maior prenda, que há, é ser virgem.
     Mas, primeiro, os outros obram a história da gente.
     Eu era menina, me via vestida de flores. Só que o que mais cedo reponta é a pobreza. Me valia ter pai e mãe, sendo órfã de dinheiro? Mocinha fiquei, sem da inocência me destruir, tirava junto cantigas de roda e modinhas de sentimento. Eu queria me chamar Maria Miss, reprovo meu nome, de Flausina.
      Deus me deu esta pintinha preta na alvura do queixo - linda eu era até a remirar minha cara na gamela dos porcos, na lavagem. E veio aquele, Lopes, chapéu grandão, aba desabada.Nenhum presta; mas esse, Zé, o pior, rompente sedutor. Me olhava: aí eu espiada e enxergada, no ter de me estremecer.
      A cavalo ele passava, por frente de casa, meu pai e minha mãe saudavam, soturnos de outro jeito. Esses Lopes, raça, vieram de outra ribeira, tudo adquiriam ou tomavam; não fosse Deus, e até hoje mandavam aqui, donos. A gente tem é de ser miúda, mansa, feito botão de flor. Mãe e pai não deram para punir por mim.
     Aos pedacinhos, me alembro.
    Mal com dilato para chorar, eu queria enxoval, ao menos, feito as outras, ilusão de noivado. Tive algum? Cortesias nem igreja. O homem me pegou, com quentes mãos e curtos braços, me levou para uma casa, para a cama dele. Mais aprendi lição de ter juízo. Calei muitos prantos. Aguentei aquele caso corporal. 
      Fiz que quis: saquei malinas lábias. Por sopro do demo, se vê, uns homens caçam é mesmo isso, que inventam. Esses Lopes! - Com eles, nenhum capim, nenhum leite. Falei, quando dinheiro me deu, afetando ser bondoso: - "Eu tinha três vinténs, agora tenho quatro..." Contentado ele ficou, não sabia que eu estava abrindo e medindo.
       Para me vigiar, botou uma preta magra em casa, Si-Ana. Entendi: a que eu tinha de engambelar, por arte de contas; e à qual chamei de madrinha e comadre. Regi de alisar por fora a vida. Deitada é que eu achava o somenos do mundo, camisolas do demônio.
       Ninguém põe ideia nesses casos: de se estar noite inteira em canto de catre, com o volume do outro cercando a gente, rombudo, o cheiro, o ressonar, qualquer um é alheios abusos. A gente, eu, delicada moça, cativa assim, com o abafo daquele, sempre rente, no escuro. Daninhagem, o homem parindo os ocultos pensamentos, como um dia come o outro, sei as perversidades que roncava? Aquilo tange as canduras de noiva, pega feito doença, para a gente em espírito se traspassa. Tão certo como eu hoje estou o que nunca fui. Eu ficava espremida mais pequena, na parede minha unha riscava rezas, o querer outras larguras.
      Tracei as letras. Carecia de ter o bem ler e escrever, conforme escondida. Isso principiei - minha ajuda em jornais de embrulhar e mais com as crianças de escola.
      E dê-cá dinheiro.
      O que podendo, dele tudo eu para mim regrava. Mealhava. Fazia portar escrituras. Sem acautelar, ele me enriquecia. Mais, enfim que o filho dele nasceu, agora já tinha em mim a confiança toda, quase. Mandou embora a preta Si-Ana, quando levantei o falso alegado: que ela alcovitasse eu cedesse vezes carnais a outro, Lopes igual - que da vida logo desapareceu, em sistema de não-se-sabe.
      Dito: meio se escuta, dobro se entende. Virei cria de cobra. Na cachaça, botava sementes da cabeceira-preta, dosezinhas; no café, cipó timbó e saia-branca. Só para arrefecer aquela desatada vontade, nem confirmo que seja crime. Com o tingui-capeta, um homem se esmera, abranda. Estava já amarelinho, feito ovo que ema acabou de pôr. em muito custo, morreu. Minha vida foi muito fatal. Varri casa, joguei o cisco para a rua, depois do enterro.
       E os Lopes me davam sossego?
       Dois deles, tesos, me requerendo, o primo e o irmão do falecido. Mexi em vão por me soltar, dessas minhas pintadas feras. Nicão, um, mau me emprazou: - "Despois da missa de mês, me espera..."Mas o Sertório, senhor, o outro, ouro e punhal em mão, inda antes do sétimo dia já entrava por mim e dentro em casa. Padeci com jeito. E o governo da vida? Anos, que me foram, de gentil sujeição, custoso que nem guardar chuva em cabaça, picar fininho a couve.
       Tanto na bramosia os dois tendo ciúme.  Tinham de ter, autorizei. Nicão a casa rodeava. Ao Sertório dei mesmo dois filhos? Total, o quanto que era dele, cobrei, passando ligeiro já para minhas posses; até honra. Experimentei finuras novas - somente em jardim de mim, sozinha. Tomei ar de mais donzela.
        Sorria debruçada em janela, no bico do beiço, negociável; justiçosa. Até que aquela ideia endurecesse. Eu já sabia que ele era Lopes, desatinado, fogoso, água de ferver fora de panela. Vi foi ele sair, fulo de fulo, revestido de raiva, com os bolsos cheios de calúnias. Ao outro eu tinha enviado os recados, embebidos em doçuras. Ri muito útil ultimamente. Se enfrentaram, bom contra bom, meus relâmpagos, a tiros e ferros. Nicão morreu sem demora. O Sertório durou, uns dias. Inconsolável chorei, conforme os costumes certos, por a piedade de todos: pobre, duas e meio três vezes viúva. Na beira do meu terreiro. 
         Mas um, mais, porém, ainda me sobrou. Sorocabano Lopes, velhoco, o das fortes propriedades. Me viu e me botou na cabeça. Aceitei, de boa graça, ele era o aflitinho dos consolos. Eu impondo: -" De hoje por diante, só casada!" Ele, por fervor, concordou - com o que, para homem nessa idade inferior, é abotoar botão na casa errada. E, este, bem demais e melhor tratei, seu desejo efetuado.
         Por isso, andei quebrando metade da cabeça: dava a ele gordas, temperadas comidas, e sem descanso agradadas horas - o sujeito chupado de amores, de chuchurro. Tudo o que é bom faz mal e bem. Quem morreu mais foi ele. Daí, tudo tanto herdei, até que com nenhum enjoo.
         Entanto que enfim, agora, desforrada. O povo ruim terminou, aqueles. Meus filhos, Lopes, também, provi de dinheiro, para longe daqui viajarem gado. Deixo de porfias, com o amor que achei. Duvido, discordo de quem não goste. Amo, mesmo. Que podia ser mãe dele, menos me falem, sou de me constar de folhinhas e datas?
          Que em meu corpo ele não mexa fácil. Mas que, por bem de mim, me venham filhos, outros, modernos e acomodados. Quero o bom-bocado que não fiz, quero gente sensível. De que me adianta estar remediada e entendida, se não dou conta de questão das saudades? Eu, um dia, fui já muito menininha... Todo o mundo vive para ter alguma serventia. Lopes, não! - desses me arrenego.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Canção Amiga - Carlos Drummond de Andrade

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me veem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois caminhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.