quinta-feira, 4 de junho de 2015

Passeio Pela Praia - Capítulo 4 de A Montanha Mágica, de Thomas Mann



Pode-se narrar o tempo, o próprio tempo, o tempo como tal e em si?Não, isso seria deveras uma empresa tola. Uma história que rezasse: "O tempo decorria, escoava-se, seguia o seu curso" e assim por diante - nenhum homem de espírito são poderia considerá-la história.Seria como se alguém tivesse a ideia maluca de manter durante uma hora um mesmo tom ou acorde e afirmasse ser isso música.Pois a narrativa se parece com a música no sentido de que ambas dão um conteúdo ao tempo; "enchem-no de uma forma decente", "assinalam-no" e fazem com que ele "tenha algum valor próprio" e que "nele aconteça alguma coisa", para citarmos, com a melancólica piedade que se costuma devotar aos ditos defuntos, algumas observações ocasionais do saudoso Joachim, palavras essas que há muito se perderam no espaço; nem sabemos se o leitor é capaz de dizer claramente quanto tempo se passou desde que foram pronunciadas. O tempo é o elemento da narrativa, assim como é o elemento da vida; está inseparavelmente ligado a ela, como aso corpos no espaço. É também o elemento da música, que o mede e subdivide, carregando-o  de interesse e tornando-o precioso. Nesse ponto, como já mencionamos, assemelha-se à narrativa e difere da obra de arte plástica que surge diante de nós de uma vez, em todo o seu esplendor, e não se acha relacionada com o tempo senão à maneira de todos os corpos. A narrativa, porém, não se pode apresentar senão sob a forma de uma sequência de fatos, como algo que se desenvolve, e necessita intimamente do tempo, mesmo que deseje estar toda presente a cada instante que transcorre.

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