sexta-feira, 17 de julho de 2015

Motivo - Cecília Meireles

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
 - não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
 - mais nada.





quinta-feira, 9 de julho de 2015

Sonho de Heroi - Murilo Araújo

Com um galho de bambu verde
e dois ramos de palmeira
eu hei de fazer um dia o meu cavalo - com asas!

Subirei nele, com o vento, lá bem alto,
de carreira,
por sobre o arvoredo e as casas.

Voarei, roçando o mato, 
as copas em flor das árvores,
como se cruzasse o mar...
e até sobre o maro de fato
passarei nas nuvens pálidas
muito acima das montanhas, das cidades, das cachoeiras,
mais alto que a chuva, no ar!

E irei até às estrelas,
ilhas dos rios de além,
ilhas de pedras divinas,
de ribeiras diamantinas
com palmas, conchas, coquinhos nas suas praias também...

praias de pérola e de ouro
onde nunca foi ninguém...


terça-feira, 7 de julho de 2015

Principado Extinto - Matilde Campilho

Isto é um poema
fala de amor
ou medo do amor
Fala da morte
ou do fim da amálgama
rosto voz alma e cheiro
que é a morte
Isto é um poema
tenha medo
Fala dos peregrinos
que atravessam avenidas
de sobretudo e óculos
carregando flores invisíveis
e chorando mudos
Isto aqui é um poema
fala da permanência inútil
de um coração devastado
de uma floresta devastada
de uma corrida devastada
logo depois do disparo
da arma de 40 peças
que soltou a bandeirinha
e assim mesmo se desfez
Isto é um poema
fala da aparição do inverno
fala da fuga dos albatrozes

fala do punhal sobre a mesa
e do absurdo do punhal
feito de madeira e pedra
sobre a mesa do jantar
Fala do poder da erosão
que afinal incide sobre
pele nervo e osso e olho
Fala do desaparecimento
Fala do desaparecimento
Fala do desaparecimento
Claro que é um poema
fala do toque de saída
no colégio de Île de France
e das 39 saias das meninas
esvoaçando sem vontade
na direção do cais de ferro
Fala do pânico do corpo
que esbarra em si mesmo
no espelho pela manhã
e do urro silencioso
que nenhum vizinho
escuta mas que ainda
assim reverbera sem dó
até a hora final
fala do vômito que advém
dos gestos repetidos

Fala do vômito que advém
dos gestos gastos
prolongados assim ad astra
até que o sono apague tudo
Fala da palavra saudade
ou da palavra terremoto
fala do olho que tudo via
deixando lentamente de ver
até mesmo a cara de Jack Steam
o porteiro da loja de discos
onde toca a canção de Chavela
Nada mais no mundo importa
Isto é que é poema
Fala do cheiro das flores
e da injustiça da existência
das flores na cidade
Fala da dor excruciante
meu bem excruciante
que faz até desejar
o fim do poema
o fim da palavra amor
que após o disparo
se espelha apenas
na palavra loucura.



segunda-feira, 6 de julho de 2015

Carta de Mário de Andrade



Salve a Banda! (fragmento) - D. Marcos Barbosa

   Se o poeta Carlos Drummond de Andrade saudou a banda que passa, se o cronista Rubem Braga também lhe mandou seu aplauso e se comoveu com a lembrança da moça feia que a banda não esqueceu, como não haveria o padre, o monge, de alegrar-se também com o mundo que se torna de repente fraternal e unido pelas coisas de amor que a banda canta?

   Estava à toa na vida
o meu amor me chamou
pra ver a banda passar
cantando coisas de amor.

   A banda vai passando e vai chamando, e os homens vão saindo, por um instante, da sua concha, da sua crosta, do seu asteroide, cativados pela suavidade, pela festa, pela infância da música.
   Como é bonito vermos de novo este mundo congregado, reunido, se encontrando, por um instante ao menos, enquanto passa a banda. Esta banda, que é prima-irmã do Pequeno Príncipe, vai tirando os homens da solidão, e o eco já não responde mais: "Estou só! Estou só!".

A minha gente sofrida
despediu-se da dor
pra ver a banda passar
cantando coisas de amor.

   Quem leu o Pequeno Príncipe? O homem de negócios está só no seu asteroide, e o vaidoso também, e o bêbado também, e o sábio também, e o trabalhador também; pois o dinheiro, a vaidade, o vício, e até mesmo o trabalho e a ciência, levam à solidão - e mesmo à guerra - se não estão imantados pelo amor, transfigurados pelo amor; pois só o amor - "o amor que move o sol e as outras estrelas" - só o amor cria laços.
   
   E a bandinha passa "cantando coisas de amor". Os homens já não se sentem repelidos, mandados para o inferno, mas pensam: alguém pensou em mim, teve pena da minha solidão sem conhecer-me e manda-me esta mensagem que vai passando - e vai interrompendo, por um instante, a ganância do rico, a bazófia, a feiura da moça feia. Todos se encontram, de repente, naquela pausa, naquele intervalo que é música, sentindo a comunicação, a comunhão, a volta da infância e a sugestão de alguma coisa que talvez se possa esperar, e que por isso já se faz presente...

sábado, 4 de julho de 2015

A Banda - Fragmento de Carlos Drummond de Andrade

         Se uma banda sozinha faz a cidade toda se enfeitar e provoca até o aparecimento da lua cheia no céu confuso e soturno, crivado de signos ameaçadores, é porque há uma beleza generosa e solidária na banda, há uma indicação clara para todos, os os que têm responsabilidade de mandar e os que são mandados, os que estão contando dinheiro e os que não o tem para contar e muito menos para gastar, os espertos e os zangados, os vingadores e os ressentidos, os ambiciosos e todos, mas todos os etecéteras que eu poderia alinhar aqui se dispusesse da página inteira.
          Coisas de amor são finezas que se oferecem a qualquer que saiba cultivá-las e distribuí-las, começando por querer que elas floresçam. E não se limitam ao jardinzinho particular de afetos que cobre a área de nossa vida particular; abrange terreno infinito, nas relações humanas, no país como entidade carente de amor, no universo-mundo onde a voz do Papa soa como uma trompa longínqua, chamando o velho fraco, a mocinha feia, o homem sério, o faroleiro... todos que viram a banda passar, e por uns minutos se sentiram melhores. E se o que era doce acabou, depois que a banda passou, que venha outra banda, Chico, e que nunca uma banda como essa deixe de musicalizar a alma da gente.

Profundamente - Manuel Bandeira



Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondo de bombas luzes de bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde

Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

 - Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

  -Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente


Noite de São João - Jorge de Lima



Vamos ver quem é que sabe
soltar fogos de São João?
Foguetes, bombas, chuvinhas,
chios, chuveiros, chiando,
            chiando,
            covendo
            chuvas de fogo!
     Chá  -  Bum!

O delegado proibiu bombas, foguetes, busca-pés.

Chamalotes tcheco-eslavos
           enchem o chão
           de chamas rubras.
Chagas de enxofre chinesas
            chiam,
            choram,
            cheiram,
numa chuva de chispas,
chispas de todos os tons;
listas de todas as cores
            e no fim
            sempre um
Tchi  -  Bum!
Fogueira! Fogueira!
           A menina bonita
           saltou a fogueira
                  de meus olhos.
Meus olhos ficaram
cheios de fumaça de sonho!



quarta-feira, 1 de julho de 2015

O Conto Mais Importante de Todos os Contos



Esta história escrevi com a mão engessada por ter distendido um músculo, e ela começa assim:
Era uma vez uma menina muito pobre, chamada Menipo, que morava em um barracão muito escuro, com telhado de zinco. Seu pai, Severo, era muito rude e cruel, e a menina chorava todos os dias por isso.
Menipo gostava de um garoto. Um dia ela saiu com suas amigas, e todas resolveram ir até o apartamento deste garoto. Daí essa garota comprou um daqueles pirulitos de coração, e mandou suas amigas entregarem para ele. Menipo era muito pobre para lhe comprar outra coisa. Ela ficou com vergonha e se escondeu no banheiro. Mas Tulus (que era o nome do garoto) chegou na porta do banheiro e disse:
            - Foi o melhor presente que ganhei.
Depois desse dia, eles dois começaram a sair, e a mãe de Menipo deu o maior apoio a eles.
De repente, esta menina sou eu! E Menipo vira aqui uma amiga minha.
***
Eu, minha família, Ana Carolina, Menipo e Tulus estávamos em um restaurante chumbrega. Então eu e Ana Carolina fomos lavar as mãos, e Menipo foi junto.  Ana Carolina voltou para a mesa, mas Menipo me mostrou um lugar que parecia o fundo de uma casa, muito úmido e cheio de musgos. Descemos uma escada cheia de plantas, onde havia um corredor com uma torneira. E eu perguntei:
            - Como que você sabe desse lugar?
E ela:
            - Eu sou pobre... Você nunca explorou o fundo das casas? Tem sempre enchente aqui.
Então voltamos para dentro do restaurante, eu achando aqueles últimos instantes muito estranhos e sem sentido. Ao voltarmos, minha irmã tirava sementes de uma melancia com a ponta de uma faca, e o Tulus conversava com meus dois irmãos.
Levamos a casca redonda da melancia que haviamos comido de sobremesa para fora, e ficamos todos brincando de quem chutava mais longe a melancia.
Então, de repente, percebi que o Tulus era apenas um sonho. Mas como ele era MUITO gente boa, nós fomos até um senhorzinho que estava ali por perto escrevendo nomes no arame. Pedi a ele que escrevesse Tulus em um e meu nome em outro.Virei-me para o Tulus e disse que quando eu acordasse, ia mandar gravar seu nome em um arame mesmo, porque eu o amava, e não ia ficar sem ele. Eu iria procurá-lo até encontrar, e esperava que ele também me procurasse. Ele era meu melhor namorado...
E assim, fui embora. Quando acordei, percebi que o Tulus ainda estava comigo. Eu quis que realmente o encontrasse um dia.
Procurei o Tulus por muitos anos, e quando desisti de procurar, fiz dele apenas a minha consciência, aquela voz que precisamos consultar às vezes para tomar decisões, aquela voz que sempre nos aconselha, que quando não temos a quem recorrer, perguntamos a ela o que devemos fazer.
Tulus ficou sendo minha consciência por um bom tempo. Eu já havia até esquecido de procurá-lo, estava dando continuidade à minha vida. Naquela época, eu fazia conservatório musical. Afundei na minha música, e só queria saber de tocar, pois a música me transcendia. E quando eu já nem lembrava mais desta história, quando não estava mais nem aí em encontrar o Tulus, quando nem imaginava sequer em pensar em algo parecido com um relacionamento, eu o encontrei.
Eu diria, na verdade, que foi ele que me encontrou, porque eu já não procurava. Fomos nos reconhecendo aos poucos, a princípio ninguém de nós dois sabia quem era quem. Mas como as coisas na vida são para ser inesperadas como são, o nosso relacionamento foi durando. Fui percebendo que ele era o Tulus, e percebi que ele era muito melhor do que aquele do sonho.
Fiquei muito feliz de tê-lo encontrado. Fiquei mais feliz ainda de ter percebido que é ele, e que ele, assim como eu, não quis ficar longe de mim.

E até hoje estamos juntos, eu e meu Tulus, firmes, fortes. Mas ele ainda não sabe que é o Tulus. Talvez ele nunca saiba. Aqui ele não se chama Tulus, ele tem outro nome. Mas eu também tenho outro nome. O que mais importa é que nós nos encontramos, e agora ficaremos juntos para sempre.