sábado, 4 de julho de 2015

A Banda - Fragmento de Carlos Drummond de Andrade

         Se uma banda sozinha faz a cidade toda se enfeitar e provoca até o aparecimento da lua cheia no céu confuso e soturno, crivado de signos ameaçadores, é porque há uma beleza generosa e solidária na banda, há uma indicação clara para todos, os os que têm responsabilidade de mandar e os que são mandados, os que estão contando dinheiro e os que não o tem para contar e muito menos para gastar, os espertos e os zangados, os vingadores e os ressentidos, os ambiciosos e todos, mas todos os etecéteras que eu poderia alinhar aqui se dispusesse da página inteira.
          Coisas de amor são finezas que se oferecem a qualquer que saiba cultivá-las e distribuí-las, começando por querer que elas floresçam. E não se limitam ao jardinzinho particular de afetos que cobre a área de nossa vida particular; abrange terreno infinito, nas relações humanas, no país como entidade carente de amor, no universo-mundo onde a voz do Papa soa como uma trompa longínqua, chamando o velho fraco, a mocinha feia, o homem sério, o faroleiro... todos que viram a banda passar, e por uns minutos se sentiram melhores. E se o que era doce acabou, depois que a banda passou, que venha outra banda, Chico, e que nunca uma banda como essa deixe de musicalizar a alma da gente.

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