quarta-feira, 1 de julho de 2015

O Conto Mais Importante de Todos os Contos



Esta história escrevi com a mão engessada por ter distendido um músculo, e ela começa assim:
Era uma vez uma menina muito pobre, chamada Menipo, que morava em um barracão muito escuro, com telhado de zinco. Seu pai, Severo, era muito rude e cruel, e a menina chorava todos os dias por isso.
Menipo gostava de um garoto. Um dia ela saiu com suas amigas, e todas resolveram ir até o apartamento deste garoto. Daí essa garota comprou um daqueles pirulitos de coração, e mandou suas amigas entregarem para ele. Menipo era muito pobre para lhe comprar outra coisa. Ela ficou com vergonha e se escondeu no banheiro. Mas Tulus (que era o nome do garoto) chegou na porta do banheiro e disse:
            - Foi o melhor presente que ganhei.
Depois desse dia, eles dois começaram a sair, e a mãe de Menipo deu o maior apoio a eles.
De repente, esta menina sou eu! E Menipo vira aqui uma amiga minha.
***
Eu, minha família, Ana Carolina, Menipo e Tulus estávamos em um restaurante chumbrega. Então eu e Ana Carolina fomos lavar as mãos, e Menipo foi junto.  Ana Carolina voltou para a mesa, mas Menipo me mostrou um lugar que parecia o fundo de uma casa, muito úmido e cheio de musgos. Descemos uma escada cheia de plantas, onde havia um corredor com uma torneira. E eu perguntei:
            - Como que você sabe desse lugar?
E ela:
            - Eu sou pobre... Você nunca explorou o fundo das casas? Tem sempre enchente aqui.
Então voltamos para dentro do restaurante, eu achando aqueles últimos instantes muito estranhos e sem sentido. Ao voltarmos, minha irmã tirava sementes de uma melancia com a ponta de uma faca, e o Tulus conversava com meus dois irmãos.
Levamos a casca redonda da melancia que haviamos comido de sobremesa para fora, e ficamos todos brincando de quem chutava mais longe a melancia.
Então, de repente, percebi que o Tulus era apenas um sonho. Mas como ele era MUITO gente boa, nós fomos até um senhorzinho que estava ali por perto escrevendo nomes no arame. Pedi a ele que escrevesse Tulus em um e meu nome em outro.Virei-me para o Tulus e disse que quando eu acordasse, ia mandar gravar seu nome em um arame mesmo, porque eu o amava, e não ia ficar sem ele. Eu iria procurá-lo até encontrar, e esperava que ele também me procurasse. Ele era meu melhor namorado...
E assim, fui embora. Quando acordei, percebi que o Tulus ainda estava comigo. Eu quis que realmente o encontrasse um dia.
Procurei o Tulus por muitos anos, e quando desisti de procurar, fiz dele apenas a minha consciência, aquela voz que precisamos consultar às vezes para tomar decisões, aquela voz que sempre nos aconselha, que quando não temos a quem recorrer, perguntamos a ela o que devemos fazer.
Tulus ficou sendo minha consciência por um bom tempo. Eu já havia até esquecido de procurá-lo, estava dando continuidade à minha vida. Naquela época, eu fazia conservatório musical. Afundei na minha música, e só queria saber de tocar, pois a música me transcendia. E quando eu já nem lembrava mais desta história, quando não estava mais nem aí em encontrar o Tulus, quando nem imaginava sequer em pensar em algo parecido com um relacionamento, eu o encontrei.
Eu diria, na verdade, que foi ele que me encontrou, porque eu já não procurava. Fomos nos reconhecendo aos poucos, a princípio ninguém de nós dois sabia quem era quem. Mas como as coisas na vida são para ser inesperadas como são, o nosso relacionamento foi durando. Fui percebendo que ele era o Tulus, e percebi que ele era muito melhor do que aquele do sonho.
Fiquei muito feliz de tê-lo encontrado. Fiquei mais feliz ainda de ter percebido que é ele, e que ele, assim como eu, não quis ficar longe de mim.

E até hoje estamos juntos, eu e meu Tulus, firmes, fortes. Mas ele ainda não sabe que é o Tulus. Talvez ele nunca saiba. Aqui ele não se chama Tulus, ele tem outro nome. Mas eu também tenho outro nome. O que mais importa é que nós nos encontramos, e agora ficaremos juntos para sempre.

Nenhum comentário:

Postar um comentário