terça-feira, 25 de agosto de 2015

"Bárbara"




Achava que meu português
era errado.
Subjeto da língua.
Sub objeto da língua.
Sub dejeto da língua.

O português certo é errado.
O português culto é errado.
O errado é dizer que o errado
é certo.

É errado dizer que o errado é culto,
mas não é errado dizer que o culto é errado.

Meu português não é português.
Meu português é latim, é guarani, é bárbaro.
Bárbara é o meu outro nome.
Meu português é brasileiro, nascido no sul,
morando em São Paulo, rondando Minas.
A língua que falo não é português.
A língua que escrevo não é português.
O que é o português?

O galego, o luso, o misto...

Escrevo numa língua e falo em outra.
Sou bilíngue, Trilíngue. Tetralíngue.
Sou ambidestra. Mas não pratico.
Sou uma minestra de língua, de fala,
de voz, de raça, de cor...
Sou uma minestra de letrinhas.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Trecho de Campo Geral - João Guimarães Rosa


      Um certo Miguilim morava com sua mãe, seu pai e seus irmãos, longe, longe daqui, muito depois da Vereda-do-Frango-d'Água e de outras veredas sem nome ou pouco conhecidas, em ponto remoto, no Mutum. No meio dos Campos Gerais, mas num covão em trecho de matas, terra preta, pé de serra. Miguilim tinha oito anos. Quando completara sete, havia saído dali, pela primeira vez: o tio Terez levou-o a cavalo, à frente da sela, para ser crismado no Sucuriju, por onde o bispo passava. Da viagem, que durou dias, ele guardara aturdidas lembranças, embaraçadas em sua cabecinha. De uma, nunca pôde se esquecer: alguém, que já estivera no Mutum, tinha dito: - "É um lugar bonito, entre morro e morro, com muita pedreira e muito mato, distante de qualquer parte; e lá chove sempre..."

      Mas sua mãe, que era linda e com os cabelos pretos e compridos, se doía de tristeza de ter de viver ali. Queixava-se, principalmente nos demorados meses chuvosos, quando carregava o tempo, tudo tão sozinho, tão escuro, o ar ali era mais escuro; ou, mesmo na estiagem, qualquer dia, de tardinha, na hora do sol entrar. - "Oê, ah, o triste recanto..." - ela exclamava. Mesmo assim, Miguilim padeceu tanta saudade, de todos e de tudo, que às vezes nem conseguia chorar, e ficava sufocado. E descobriu, por si, que, umedecendo as ventas com um tico de cuspe, aquela aflição um pouco aliviava.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Trecho de Campo Geral - Guimarães Rosa

Miguilim

    De repente lá vinha um homem a cavalo. Eram dois. Um senhor de fora, o claro da roupa. Miguilim saudou, pedindo a bênção. O homem trouxe o cavalo cá bem junto. Ele era de óculos, corado, alto, com um chapéu diferente, mesmo.
                  
                 - Deus te abençõe, pequenino. Como é o teu nome?
                 - Miguilim. Eu sou irmão do Dito.
                 - E o seu irmão Dito é dono daqui?
                 - Não, meu senhor. O Ditinho está em glória.

    O homem esbarrava o avanço do cavalo, que era zelado, manteúdo, formoso como nenhum outro. Redizia:
               - Ah, não sabia, não. Deus o tenha em sua guarda... Mas, que é que há, Miguilim?

     Miguilim queria ver se o homem estava mesmo sorrindo para ele, por isso é que o encarava.
               
              - Por que você aperta os olhos assim? Você não é limpo de vista? Vamos até lá. Quem é que está em tua casa?
               - É Mãe, e os meninos...
      
      Estava Mãe, estava tio Terez, estavam todos. O senhor alto e claro se apeou. O outro, que vinha com ele, era um camarada. O senhor perguntava à Mãe muitas coisas do Miguilim. Depois perguntava a ele mesmo: - "Miguilim, espia daí: quantos dedos da minha mão você está enxergando? E agora?"
       Miguilim espremia os olhos. Drelina e a Chica riam. Tomézinho tinha ido se esconder.

                - Este nosso rapazinho tem a vista curta. Espere aí, Miguilim...
      
         E o senhor tirava os óculos e punha-os em Miguilim, com todo o jeito.
      
                 - Olhe, agora!

         Miguilim olhou. Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa; tudo... O senhor tinha retirado dele os óculos, e Miguilim ainda apontava, falava, contava tudo como era, como tinha visto. Mãe esteve assim assustada; mas o senhor dizia que aquilo era do modo mesmo, só que Miguilim também carecia de usar óculos, dali por diante. O senhor bebia café com eles. Era o doutor José Lourenço, do Curvelo.


Cantiga Simples - Olegário Mariano



Rio, que cantas as mágoas,
Que queres com o teu cantar?
 - Quero levar minhas águas
Até as águas do mar.

Árvore, que ergues os braços,
Que queres a bracejar?
 - Quero galgar os espaços
Para o sol me acariciar.

Nuvem, de cores estranhas,
Que queres a galopar?
 - Quero descer às montanhas,
Vestir montanhas de luar.

Lua feita de incerteza,
Que queres com o teu palor?
 - Quero boiar na tristeza
Dos olhos do teu amor.

Pastor, que sobes o monte,
Que queres galgando-o assim?
 - Quero ver do alto o horizonte,
Que foge sempre de mim.

Estrela, pequena e clara, 
Que queres? Dize, eu te dou.
 - Quero ser a joia rara
Da mulher que nunca amou.

Onda crespa, onda serena,
Que queres no teu vaivém?
 - Beijar a pele morena
Da praia que me quer bem.

Andorinha peregrina,
Que queres de asas ao léu?
 - Quero morar na colina
Mais alta, perto do céu.

Coração, que , em comovida
Marcha, bates, sofredor,
Que queres? Prazer ou dor?
 - "Eu nada quero da vida,
Além da vida do Amor."