terça-feira, 18 de outubro de 2016

"O Que é Que Eu Tenho Hoje Com Esses Bichos?"

Mate-me se puderes!
Venha tentar!
Eu já sobrevivi muitas vezes!
Eu já morri, já ressuscitei
eu sou da terra
eu vim do pó e ao pó
voltarei, e virei do pó
e ao pó irei.
Eu sou a terra!

Você pode me varrer do mundo,
mas minha poeira durará para sempre.
Dura, determinada, não vão me derrubar.
Signo elemento terra

             Por mais distante
             o errante navegante
             Quem jamais te esqueceria?...

Tente me aniquilar, eu vou voltar!
Sou fênix e renasço das cinzas.
Eu sou uma gata
e tenho sete vidas.
Tente me machucar!

Já quebrei a perna tantas vezes...
não é o que se deseja ao artista
antes do espetáculo? - Quebre a perna!
E com toda essa sorte, Jesus me carrega, pois

            Eu sou a ovelinha,
            Jesus é o pastor.
            Jesus me põe nos ombros
            com muito amor!

Vou lutar, assim, determinada
como um touro, até o fim!

            Às vezes eu me sinto numa boa
           como um boi, boi, boi
           Boi da cara preta,
           e deixo essa tristeza para depois.

Nós vamos nos unir,
nós vamos todos lutar, Diretas já!
Todo mundo para a rua,
sair do mundo da lua,
ver que a causa também é sua!
Vamos todos juntos, ninguém pode parar,
que os homens cinzentos
trazem a boiada,
rindo, cantando e dando gargalhada.
E o povo irritado vem pela estrada
berrando e gritando, direito à charqueada!

Pois do boi só se perde o berro
e é justamente o que eu vim apresentar.

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"O Que é Que Eu Tenho Hoje Com Esse Sete?"

Me espere, amor
Eu sou uma gata
e tenho sete vidas.
Espere sete anos,
que ainda estou
pintando o sete.
Aguarde ali no set
escolha uma fantasia
sete pulinhos a São Longuinho
e se olhe no espelho,
mas cuidado!
Sete anos de azar,
sete anos de labor.
Sete anos para esquecer
e me regenerar
e me perdoar.
Perdoe-me, amor
Setenta vezes sete
pelos sete pecados capitais
Senão nessa vida,
na outra, ou
na outra, ou
na outra, ou
na outra, ou
na outra, ou
na outra, ou
na outra, ou
nunca.
Eu sou uma gata
e tenho sete vidas.


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"Sete Anos de Labor Raquel Servia"



Agora entendo, Jacó
os sete anos que servias
ao meu pai
Os sete anos que
ao quebrar aquele espelho
te deu um azar danado na vida

Agora entendo a paciência
das ovelhas
Porque Raquel
é paciente dessa história

Agora compreendo a força
que esse nome carrega
Signo da terra, elemento terra
debaixo da terra está
a semente de uma nova flor

Agora entendo Jacó
a determinação taurina
a paciência ovina
a convicção menina

Todas as células do corpo
se regeneram em sete anos.
Até lá, ele ainda está aqui
como um elo, um arco
que perfura o coração.
O Lobo que mata a Ovelha,
o Matadouro que tira
as forças do Touro.

Não aceite Lia
insista nesta mulher
sete anos se passaram
e mais sete passarão

mas o pinheiro leva
quatorze anos para dar fruto, a pinha
Eu prometo frutos doces
eu prometo um balir suave
eu prometo um amor paciente e fiel
mas me espera e insiste, Jacó.

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"Plagiei o Soneto Que Camões Me Fez"





Sete anos de labor Raquel servia
muito firme era Raquel, serena e bela;
Mas não servia a ninguém, servia a ela,
e a si só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se em viver.
Porém, assim, usando de cautela,
evitava o que lhe causava azia.

Vendo a triste escritora que com enganos
lhe fora negada a sua vitória,
como se a não tivera merecida;

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: - Mais vivera, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida!


"Duas Estrelas"










Duas estrelas iguais
e distintas,
separadas e 
brilhando juntas no céu.









"O Frio Universo"

O frio do inverno
derrete minhas emoções.
O Universo se expande.
Viajar, viajar,
conhecer novos universos.
Escrever novos universos,
conhecer novos livros,
livrai-me do mal.
Deus me livro!
O Universo se exprime
em versos que expremem
minhas frias emoções.


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"Momo e o Sabor do Tempo"

O leite não tem mais
gosto de leite.
Os chocolates não têm mais
gosto de chocolate.
Nem maçã não tem mais
gosto de maçã!
O mundo está ficando insípido
e não estamos percebendo.
As laranjas estão secas,
os melões sem sabor.
Pimenta,
canela,
alho...
tudo tem gosto de alho
e não estamos percebendo.
Tudo tem o mesmo gosto,
tudo tem o mesmo cheiro,
tudo tem a mesma cor,
cinza.
Repare nos carros,
pretos e brancos e pratas.
Algum vermelho para
uma alma irritada.
Cassiopeia mostre a Momo
o caminho.
Pois viramos todos
Homens Cinzentos das Cavernas.



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"História do Carnaval Segundo Ednardo"

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Arlequim ganhaste o jogo
mas é só mais um carnaval.
Colombina ainda está radiante
e o desespero ainda é moda em 2016.
Vou sair fantasiada
de alegria por aí,
para esquecer o triste.
Mas quero mesmo é que
meu poema arlequinal
corte feito faca a pele de vocês.
Na janela, Colombina acena,
hoje mesmo passei por ela 
e vim depressa te dizer que
a calmaria geral da cidade
foi rompida pelo carnaval.
Amigo, sou Pierrot.
Ando mesmo descontente
e desesperadamente grito em Português:
" Non c'è amore per dare te, Colombina."
Arlequim aspeta,
é só Carnaval e
termina quarta feira.

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"Haikai 4"






Uni os versos
e criei
o universo.








"Diálogo 77"

Continuo uma só.
Sol.
Sol lá si dó
de mim.
Dó de si.
Si lá sol fá.
Faz alguma coisa.
Te vejo lá.
Clave.










"Mesuras, mesuras!"



A luta de um homem só,
a luta de um só homem.
Uma vida.
Amém.
O acólito.
Amém.
Um beijo? Dois beijos?
Um só.
Dançarino.
Um homem só.
Alemão, belga.
Biólogo, químico.
Em seu laboratório,
geólogo,
um homem só.
Amém.
Teatro te atrai
e trai, destrói.
Herói.
Um homem só.
A luta. De um só.
Um sol, um soldado, só.
Dados. Soldas.
Tantos sóis suados.
Amém?
A luta de um homem só.
Sólido. Solidão. Solidez. Solicitude.
Soldado e moldado.
Mas lorde-pirata.
A luta de um só homem
que não é mais
só um homem e nem
um homem só.






"Desgarrida"

Depois de ti
tornei-me belicosa.
É preciso audácia na vida.
Fui insistente,
utilizei-me de toda eloquência.
Mas Eros
não me teve compaixão.
Tu, anjinho loiro,
devolve as flechas
a Apolo.
Vênus se esconde
em Tétis, afogada.
Sou mais bela 
que Helena,
levo os deuses em meu nome.
Deusa feiticeira,
Deusa ovelha,
Deusa mansa...
Mansa mas belicosa.
Poderosa Ízis, não tens vez,
ó anjo loiro,
neste coração,
depois de ti.


"Diálogo 75"

O céu estava lilás
quando me escondi.
Assim que saí,
já não estava mais.
E tocava, triste,
o saxofone vizinho.

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"Diálogo 74"











Não quis mais o chiclete.
- Ele ou eu?









"Muito Elaborado"










Quero poesia simples
Não tudo isso elaborado...
As melhores coisas da vida
São simples...
São espontâneas,
São eternas.
Você é elaborado demais para mim.











"A Dor"





Aquele sentimento
que já não é mais
tão melancolia...
Sabe, aperta.






"Quem Quer Que Você Seja"

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Não consigo te chamar de mor.
Amor para mim é outra pessoa,
alguém que se foi...
Alguém que me deixou
amando sozinha...
Não consigo nos ver no futuro.
Não me caso nunca mais,
não tenho casa, não tenho filhos,
não tenho amor.
Amor não é você, mozão...
Nunca será.
Não posso te chamar de mor,
quem quer que você seja.




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"Diálogo 73"









O céu está
com cheiro de pipoca
e com vez
de algodão doce.










"Fragmentos de Alma"

Da laranja
quis um gomo,
do limão 
quis um pedaço.
Se eu não quisesse nada
quem sabe ainda tinha
meus beijos e abraços.

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Já perdi coisas piores
que o amor da minha vida.
Como a virgindade,
ou alguns anos da minha vida,
ou minha amiga,
ou minha avó...

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O que me impede
de ser responsavelmente
louca?
Só quero agora vestir
minha velha camisola
suja de molho de tomate.

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Eu tô indo.
Triste mesmo,
mas tô indo.

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As nuvens estão 
fininhas.
O que dizer
de um monte de vapor
materializado?

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Maçã maleável
da Malévola.
Isso não é católico...

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"Diálogo 72"











Tesão, no fim,
acabou sendo só uma letra
mesmo.











"Diálogo 71"

Me saiu
apenas uma poesia.
Mas só.
Ainda não estou curada.

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"Chama Remanescente"

O amor da minha vida
me deixou.
Não preciso de homem nenhum
Sei me fazer gozar
como nenhum homem me fez
até hoje.
Estou-me fazendo
autosuficiente.
Tenho pensado em pegar
minhas velhas barbies,
montar cenários e
fotografá-las.
O que me impede agora
de voltar a ser criança?
O que você faz quando está sozinha?
Meu coração continua aqui,
despedaçado,
já se remontando...
Não o joguei fora.
ELE ainda está ali.

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quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Minissérie Um Só Coração - Globo, 2004.

Para quem conhece um pouquinho de tudo que tenha a ver com cultura...as referências são milhões!
Que vontade de assistir a minissérie inteira!!

Reconhecem o Doutor Pompeu Pompilho Pomposo  - Dr. Abobrinha, como Mário de Andrade?

terça-feira, 9 de agosto de 2016

"É Só Uma Chuva de Verão"


Eu sou negra.
Você não vê minha cor?
Repare o samba no pé!
Repare o maxixe
Essa vontade de dançar
Essa vontade de batuque
Repare como bate o tambor
do coração.
Esse vozeirão potente,
gritado,
escondido
nesse corpinho miúdo.
Veja essa vida sofrida,
cheiro de porão, ressaca de navio,
marcas de escravidão.
Apanhando no pelourinho
em frente à Igreja de ouro.
Não fiz nada,
queimei o feijão,
odeio feijoada.
Estudo modelos europeus
e tenho uma dor quilombar.
Quanto você paga
para eu pagar seus pecados?
Sou branca,
você não vê minha cor?
Sou branca de alma preta,
branca maluca,
teta de branquela,
olhos negros
como a asa
da araponga.
Você enxerga em cores
ou enxerga em preto e branco?


sábado, 6 de agosto de 2016

Soneto 147, de William Shakespeare

My love is as a fever, longing still
For that which longer nurseth the disease;
Feeding on that which doth preserve the ill,
The uncertain sickly appetite to please.
My reason, the physician to my love,
Angry that his prescriptions are not kept, 
Hath left me, and I desperate now approve
Desire is death, which physic did except.
Past cure I am, now Reason is past care, 
And frantic-mad with evermore unrest;
My toughts and my discourse as madmen's are,
At random fro, the truth vainly express'd;
        For I have sworn thee fair, and thought thee bright,
        Who art as black as hell, as dark as night.



Tributos a Nico Nicolaievsky



Porque um verdadeiro músico toca qualquer estilo! - In Memorian a este grande artista, a estrela sborniana no céu!

terça-feira, 26 de julho de 2016

"Apagada"

No final daquela tarde só restara embalagens de chocolates espalhadas pelo quarto... A cama toda desarrumada, os sapatos de salto alto, que tanto lhe machucaram e lhe fizeram bolhas, jogados um para cada canto... Um livro lido e relido, e esquecido aberto, em cima da mesa de estudos... O lixo transbordante de bolas de papéis amassados como sua alma. O pó se alastrando cada vez mais no quarto escuro, fechado há dias, e até quem sabe mofado... Lenços de papel cheio de lágrimas e catarro secos, do choro amargurado. Todos os porta retratos virados para não mostrarem as fotos, assim como a tela do computador, quebrada com força e raiva, onde aparecia o sorriso... O fatídico sorriso amarelo... o falso sorriso de paixão. Tudo fora resolvido em um dia. Tudo? Fora resolvido? Não... pensara assim, até que viera à tona tudo de novo... e dessa vez viera ainda mais forte, ainda mais estúpido, ainda mais dolorido... Só vira nuvens cinzas sendo escarradas em cima dela... Resolvera tudo... Ela sim, mas seu sorriso não resolvera nada... Era apenas mais um sorriso amarelo, um sorriso escondendo outra lágrima... um sorriso escondendo passados e histórias obscuras... Era o sorriso que ganhara, e se apaixonara, e se torturara para ver de novo...
Agora via o quão triste podia ser aquele sorriso... Um sorriso cinza, um sorriso marrom. Um sorriso amargurando o peito... Um sorriso do desprezo desprezível com que encarara tudo aquilo... Era só mais um sorriso que iria rir dela para o resto da vida... Ela sabia que agora não, mas um dia precisaria escolher entre rosas ou sorrisos...
Com toda a histeria com que vivera aquela situação, começou a gargalhar... gargalhou, quando pensou que tudo o que a fizera sorrir foram lágrimas, pesos... Percebia que os bons momentos foram na verdade falsidade, foram um fardo... Gargalhou por ter se dado conta de como fora ingênua, de como fora traída, de como fora cega... gargalhou, e gargalhou, e gargalhou...
Já não tinha mais lágrimas para chorar, e por isso ria... gargalhava! Gargalhou durante dias... e, quando se cansou, decidiu que nunca mais sorriria outra vez. E assim fez. Sua face enrugou-se com a seriedade. Passou a usar roupas escuras somente. As pessoas temiam seu humor. Foi ficando sozinha, foi se afastando do mundo, foi degradando...

E quando a encontraram, morta com uma rosa vermelha e recém desabrochada em uma mão e na outra, a fotografia de um pôr do sol sobre o mar, percebia-se claramente que morrera sorrindo, um enorme sorriso amarelo, que fazia encontro com duas grossas lágrimas debulhadas de seus olhos....

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Psicologia de Um Vencido - Augusto dos Anjos


Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância ...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme – esse operário das ruínas –
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra.

sábado, 21 de maio de 2016

Ó Cisnes Brancos - Alphonsus de Guimaraens


Ó cisnes brancos, cisnes brancos, 

Porque viestes, se era tão tarde?
O sol não beija mais os flancos
Da Montanha onde mora a tarde.

Ó cisnes brancos, dolorida
Minh’alma sente dores novas.
Cheguei à terra prometida:
É um deserto cheio de covas.

Voai para outras risonhas plagas, 
Cisnes brancos! Sede felizes...
Deixai-me só com as minhas chagas, 
E só com as minhas cicatrizes.

Venham as aves agoireiras, 
De risada que esfria os ossos...
Minh’alma, cheia de caveiras,
Está branca de padre-nossos.

Queimando a carne como brasas,
Venham as tentações daninhas,
Que eu lhes porei, bem sob asas,
A alma cheia de ladainhas.

Ó cisnes brancos, cisnes brancos,
Doce afago da alva plumagem!
Minh’alma morre aos solavancos
Nesta medonha carruagem...

Quando chegaste, os violoncelos
Que andam no ar cantaram no hinos.
Estrelaram-se todos os castelos, 
E até nas nuvens repicaram sinos.

Foram-se as brancas horas sem rumo, 
Tanto sonhadas! Ainda, ainda
Hoje os meus pobres versos perfumo
Com os beijos santos da tua vinda.

Quando te foste, estalaram cordas
Nos violoncelos e nas harpas...
E anjos disseram: — Não mais acordas, 
Lírio nascido nas escarpas!

Sinos dobraram no céu e escuto
Dobres eternos na minha ermida.
E os pobres versos ainda hoje enluto
Com os beijos santos da despedida.

Como se Moço e Não Bem Velho Eu Fosse - Afonso de Guimarães

Como se moço e não bem velho eu fosse,
Uma nova ilusão veio animar-me,
Na minh`alma floriu um novo carme,
O meu ser para o céu alcandorou-se.

Ouvi gritos em mim como um alarme.
E o meu olhar, outrora suave e doce,
Nas ânsias de escalar o azul, tornou-se
Todo em raios, que vinham desolar-me.

Vi-me no cimo eterno da montanha
Tentando unir ao peito a luz dos círios
Que brilhavam na paz da noite estranha.

Acordei do áureo sonho em sobressalto;
Do céu tombei ao caos dos meus martírios,
Sem saber para que subi tão alto...

Cantem outros a clara cor virente - Afonso de Guimarães


Cantem outros a clara cor virente 
Do bosque em flor e a luz do dia eterno... 
Envoltos nos clarões fulvos do oriente, 
Cantem a primavera: eu canto o inverno.

Para muitos o imoto céu clemente 
É um manto de carinho suave e terno: 
Cantam a vida, e nenhum deles sente 
Que decantando vai o próprio inferno.

Cantem esta mansão, onde entre prantos 
Cada um espera o sepulcral punhado 
De úmido pó que há de abafar-lhe os cantos...

Cada um de nós é a bússola sem norte. 
Sempre o presente pior do que o passado. 
Cantem outros a vida: eu canto a morte...

Hão de chorar por ela os cinamomos - Alphonsus de Guimaraens


Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão — "Ai! nada somos,
Pois ela se morreu silente e fria.. . "
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.

A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa.

Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: — "Por que não vieram juntos?"

Ismália - Afonso de Guimarães


Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.


No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...


E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...


E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...


As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

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A Catedral - Alphonsus de Guimaraens




Entre brumas ao longe surge a aurora,
O hialino orvalho aos poucos se evapora,
Agoniza o arrebol.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece na paz do céu risonho
Toda branca de sol.

E o sino canta em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

O astro glorioso segue a eterna estrada.
Uma áurea seta lhe cintila em cada
Refulgente raio de luz.
A catedral ebúrnea do meu sonho,
Onde os meus olhos tão cansados ponho,
Recebe a benção de Jesus.

E o sino clama em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

Por entre lírios e lilases desce
A tarde esquiva: amargurada prece
Poe-se a luz a rezar.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece na paz do céu tristonho
Toda branca de luar.

E o sino chora em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"

O céu e todo trevas: o vento uiva.
Do relâmpago a cabeleira ruiva
Vem acoitar o rosto meu.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Afunda-se no caos do céu medonho
Como um astro que já morreu.

E o sino chora em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"


O Cão de Pavlov - Cognitivismo


sexta-feira, 13 de maio de 2016

O Amor Bate na Aorta - Carlos Drummond de Andrade


Cantiga de amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.

Meu bem, não chores,
hoje tem filme de Carlito.

O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.

Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.

Amor é bicho instruído.

Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que corre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...

A Morte de Moema, Santa Rita Durão

O Futuro no Ponto Aton


Poema de Bocage - Nem Neoclássico, nem Pré - Romântico

Olha, Marília, as flautas dos pastores,
Que bem que soam, como estão cadentes!
Olha o Tejo a sorrir-se!Olha: não sentes
Os Zéfiros brincar por entre as flores?

Vê como ali, beijando-se, os Amores
Incitam nossos ósculos ardentes!
Ei-las de planta em planta as inocentes,
As vagas borboletas de mil cores!

Naquele arbusto o rouxinol suspira;
Ora nas folhas a abelinha pára.
Ora nos ares, sussurrando, gira.

Que alegre campo! Que manhã tão clara!
Mas ah!, tudo o que vês, se eu tão te vira,
mais tristeza que a noite me causara.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

"Ser"

Se for para ser, sê inteiro...
Não sê fragmentos, pedaços ou cacos...
Sê, somente sê...
E se, somente se,
for para mudar, mude lentamente...
Mude aos poucos, mude sempre sendo inteiro...
Mude o mundo inteiro
sendo o ser que se é por inteiro.

Odes - Ricardo Reis

"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive"


terça-feira, 26 de abril de 2016

Trecho de "Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade", de Berman

"Existe um tipo de experiência vital - experiência de tempo e espaço, de si mesmo e dos outros, das possibilidades e perigos da vida - que é compartilhada por homens e mulheres em todo o mundo, hoje. Designarei esse conjunto de experiências como 'modernidade'. Ser moderno é encontrar-se em um ambiente que promete aventura, poder, alegria, crescimento, auto-transformação e transformação das coisas em redor - mas ao mesmo tempo ameaça destruir tudo o que temos, tudo o que somos..."