sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

José - Carlos Drummond de Andrade




E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

2 comentários:

  1. Pois é... Recebi sua ilustre visita e corri para vir lhe visitar e adivinha... Amei esse espaço, amei esse pedaço seu cheio de palavras que mechem com a gente, nossa muitos beijos pink e muita inspiração para cultivar esse lugar tão especial... Rose Pink do Pink Rose e Arte

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    1. Oi Rose!! Que bacana você por aqui, não sabe como fiquei feliz de também receber sua visita!!Você é sempre bem vinda aqui também,com o mesmo carinho que tenho lá no seu blog! Amo seu trabalho, que bom que você também gostou do blog!! Milhões de beijos e abraços!!Aparece sempre!!

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