terça-feira, 26 de julho de 2016

"Apagada"

No final daquela tarde só restara embalagens de chocolates espalhadas pelo quarto... A cama toda desarrumada, os sapatos de salto alto, que tanto lhe machucaram e lhe fizeram bolhas, jogados um para cada canto... Um livro lido e relido, e esquecido aberto, em cima da mesa de estudos... O lixo transbordante de bolas de papéis amassados como sua alma. O pó se alastrando cada vez mais no quarto escuro, fechado há dias, e até quem sabe mofado... Lenços de papel cheio de lágrimas e catarro secos, do choro amargurado. Todos os porta retratos virados para não mostrarem as fotos, assim como a tela do computador, quebrada com força e raiva, onde aparecia o sorriso... O fatídico sorriso amarelo... o falso sorriso de paixão. Tudo fora resolvido em um dia. Tudo? Fora resolvido? Não... pensara assim, até que viera à tona tudo de novo... e dessa vez viera ainda mais forte, ainda mais estúpido, ainda mais dolorido... Só vira nuvens cinzas sendo escarradas em cima dela... Resolvera tudo... Ela sim, mas seu sorriso não resolvera nada... Era apenas mais um sorriso amarelo, um sorriso escondendo outra lágrima... um sorriso escondendo passados e histórias obscuras... Era o sorriso que ganhara, e se apaixonara, e se torturara para ver de novo...
Agora via o quão triste podia ser aquele sorriso... Um sorriso cinza, um sorriso marrom. Um sorriso amargurando o peito... Um sorriso do desprezo desprezível com que encarara tudo aquilo... Era só mais um sorriso que iria rir dela para o resto da vida... Ela sabia que agora não, mas um dia precisaria escolher entre rosas ou sorrisos...
Com toda a histeria com que vivera aquela situação, começou a gargalhar... gargalhou, quando pensou que tudo o que a fizera sorrir foram lágrimas, pesos... Percebia que os bons momentos foram na verdade falsidade, foram um fardo... Gargalhou por ter se dado conta de como fora ingênua, de como fora traída, de como fora cega... gargalhou, e gargalhou, e gargalhou...
Já não tinha mais lágrimas para chorar, e por isso ria... gargalhava! Gargalhou durante dias... e, quando se cansou, decidiu que nunca mais sorriria outra vez. E assim fez. Sua face enrugou-se com a seriedade. Passou a usar roupas escuras somente. As pessoas temiam seu humor. Foi ficando sozinha, foi se afastando do mundo, foi degradando...

E quando a encontraram, morta com uma rosa vermelha e recém desabrochada em uma mão e na outra, a fotografia de um pôr do sol sobre o mar, percebia-se claramente que morrera sorrindo, um enorme sorriso amarelo, que fazia encontro com duas grossas lágrimas debulhadas de seus olhos....

Nenhum comentário:

Postar um comentário